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Fundo do oceano Índico se rompe diante dos cientistas pela primeira vez: crosta se move 4,2 metros em apenas 6 dias, derrama 160 milhões de m³ de lava e revela ao vivo o nascimento de uma nova porção do planeta
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 05/09/2026 às 17:54
Atualizado em 05/09/2026 às 18:00
Ciência e Tecnologia
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Cientistas registram pela primeira vez uma dorsal oceânica se rompendo em tempo real, com 4,2 m de afundamento e 160 milhões de m³ de lava.
O fundo do oceano Índico protagonizou um evento que os geólogos conheciam havia décadas pelos rastros deixados nas rochas, mas nunca tinham acompanhado dessa maneira diretamente sobre uma dorsal em atividade. Em apenas seis dias, o piso de um vale submarino afundou 4,2 metros enquanto a crosta se deformava e se afastava; nos cerca de 16 dias seguintes ao início da crise, até 160 milhões de metros cúbicos de lava chegaram ao fundo marinho, formando efetivamente nova crosta oceânica.
Segundo a Nature, a equipe conseguiu observar in situ, pela primeira vez, um grande episódio de expansão em uma dorsal médio-oceânica combinando medições acústicas, pressão no fundo, registros sísmicos e mapeamentos antes e depois do evento.
O fenômeno começou em 26 de abril de 2024, na Dorsal Sudeste Indiana, perto de 37° sul, apenas dois meses depois de os pesquisadores instalarem os instrumentos que acabariam registrando uma das demonstrações mais completas já obtidas de como o planeta fabrica novo fundo oceânico.
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Cientistas colocaram instrumentos no lugar certo apenas dois meses antes da ruptura
A coincidência científica foi extraordinária. No fim de fevereiro de 2024, pesquisadores instalaram o observatório OHA-GEODAMS na Dorsal Sudeste Indiana, próximo à ilha Amsterdam, numa região do sul do oceano Índico onde as placas tectônicas Australiana e Antártica se afastam continuamente.
A rede incluía cinco hidrofones autônomos, capazes de registrar sinais acústicos associados a terremotos e atividade vulcânica, além de 15 transponders acústicos instalados sobre o fundo do mar. Esses equipamentos trocavam sinais periodicamente, permitindo calcular variações de distância entre diferentes pontos da crosta. Um sensor de pressão colocado no fundo completava o sistema, registrando movimentos verticais.
Os instrumentos haviam sido colocados ali justamente para estudar como uma dorsal oceânica se deforma. O que ninguém poderia programar era o momento em que uma grande ruptura aconteceria.
Ela veio apenas cerca de dois meses depois.
Tudo começou às 19h56 de 26 de abril de 2024
Os primeiros sinais apareceram às 19h56 UTC de 26 de abril, quando os hidrofones detectaram uma sequência de pequenos eventos sísmicos no centro do segmento monitorado.
Treze minutos depois, às 20h09, ocorreu um terremoto de magnitude Mw 4,9 associado a falhamento normal sob o vale axial. Outros abalos se seguiram e começaram a migrar rapidamente pelo eixo da dorsal.
Inicialmente, a atividade avançou mais de 8 quilômetros em direção ao sudeste. Logo depois, outra sequência se propagou por mais de 9 quilômetros na direção oposta, para noroeste.
A velocidade estimada dessa migração atingiu cerca de 2 a 3 metros por segundo, padrão interpretado pelos pesquisadores como a assinatura de diques de magma avançando através da crosta.
Em termos simples, o magma estava abrindo caminho por dentro do fundo oceânico.
O fundo do vale afundou 1,2 metro em apenas dezenas de minutos
Enquanto os terremotos migravam, o sensor de pressão registrava algo ainda mais incomum.
Depois de um terremoto Mw 5,1 ocorrido às 21h03, o fundo do vale começou a afundar rapidamente. A taxa média de subsidência atingiu aproximadamente 5 centímetros por minuto durante a fase mais intensa.
Quando a rápida propagação do dique terminou por volta das 21h40, o piso oceânico já havia descido aproximadamente 1,2 metro.
Assista o vídeo
O movimento continuou mais lentamente durante as horas e dias seguintes.
Ao final de seis dias, a subsidência acumulada chegava a 4,2 metros. O dado mais impressionante é que aproximadamente 83% desse afundamento aconteceu nas primeiras 16 horas da crise.
Não era a placa inteira afundando quatro metros. Tratava-se de uma porção do vale axial diretamente afetada pela movimentação e drenagem do sistema magmático abaixo da dorsal.
Um reservatório de magma provavelmente esvaziou sob a crosta
Os pesquisadores interpretaram o afundamento como consequência da despressurização de um reservatório magmático subterrâneo.
Os modelos que melhor reproduziram as medições apontam para uma estrutura semelhante a uma soleira magmática, situada a alguns quilômetros abaixo do fundo oceânico. Em um dos cenários apresentados no estudo, o reservatório tinha aproximadamente 2,5 quilômetros de largura e estava a cerca de 3,6 quilômetros de profundidade.
Conforme o magma deixou esse reservatório e alimentou os diques que avançavam pela crosta, o sistema perdeu volume e pressão.
O teto acima dele cedeu.
Foi esse mecanismo que ajudou a produzir o afundamento extraordinariamente rápido medido pelos instrumentos.
Ao mesmo tempo, os diques abriram espaço horizontalmente, permitindo que os dois lados da dorsal se afastassem.
Décadas de expansão da crosta aconteceram praticamente de uma vez
A Dorsal Sudeste Indiana normalmente se abre numa velocidade da ordem de 61 a 63 milímetros por ano, de acordo com estimativas baseadas em anomalias magnéticas e geodesia espacial.
Isso equivale a pouco mais de 6 centímetros por ano.
Durante o evento de 2024, porém, os modelos indicaram uma extensão horizontal total entre aproximadamente 2,1 e 4 metros, dependendo da configuração considerada para o dique, a falha e o reservatório magmático.
Um dos modelos que melhor se ajustou aos dados produziu 2,4 metros de extensão horizontal. Para uma dorsal que normalmente se abre cerca de 6,3 centímetros por ano, isso corresponde a aproximadamente 38 anos de expansão tectônica acumulados em um único episódio.
As placas continuam se separando lentamente durante décadas, mas parte da deformação pode ser liberada de forma abrupta quando magma e falhas entram em ação conjuntamente.
Até 160 milhões de metros cúbicos de lava chegaram ao fundo do oceano
O evento não terminou com deformação tectônica. O magma encontrou caminho até a superfície.
Quando os cientistas retornaram e compararam os mapas batimétricos produzidos em 2024 com aqueles obtidos em 2025, encontraram grandes alterações na topografia submarina.
Novos depósitos de lava surgiram ao longo de duas faixas principais do vale. Em determinados lugares, a mudança de relevo associada aos fluxos ultrapassava 90 metros de espessura. Uma das maiores estruturas de lava formava uma faixa com aproximadamente 4 quilômetros de comprimento.
Os pesquisadores calcularam que o volume total das novas lavas ficou entre 148 milhões e 160 milhões de metros cúbicos.
No limite superior da estimativa, são 160 bilhões de litros de material vulcânico adicionados ao piso oceânico.
A lava não saiu toda em seis dias: erupção durou aproximadamente 16 dias
O título concentra os dois números mais espetaculares do episódio, mas eles correspondem a processos com durações diferentes.
Os 4,2 metros de subsidência foram acumulados em seis dias. Já os cerca de 160 milhões de metros cúbicos de lava foram extrudidos ao longo de aproximadamente 16 dias, conforme a reconstrução publicada na Nature.
A duração da erupção pôde ser estimada graças aos hidrofones.
Os instrumentos começaram a detectar grande quantidade de eventos acústicos muito curtos e energéticos associados à interação da lava quente com a água do mar. Mais de 2.150 desses sinais foram registrados por pelo menos três hidrofones até 12 de maio. Depois disso, praticamente desapareceram.
Com base nesses registros, os autores estimaram uma taxa média de extrusão próxima de 9 a 10 milhões de metros cúbicos de lava por dia, equivalente a aproximadamente 116 metros cúbicos por segundo durante o período principal.
Parte enorme da falha se moveu sem produzir terremotos proporcionais
O estudo também ajudou a esclarecer outro problema que intriga os geofísicos. As dorsais médio-oceânicas acumulam grandes quantidades de deformação, mas muitas delas produzem menos energia sísmica do que seria esperado apenas observando seu movimento tectônico.
As novas medições mostraram que uma parcela considerável da movimentação das falhas pode acontecer de maneira assísmica, ou seja, sem gerar terremotos proporcionais ao deslocamento ocorrido.
No modelo apresentado pelos autores, o movimento observado exigia cerca de 1,9 metro de deslizamento em uma falha normal. Esse deslocamento era aproximadamente uma ordem de grandeza maior do que seria esperado apenas a partir dos terremotos de magnitude próxima de 5 registrados durante a sequência.
A interpretação é que grande parte da falha deslizou silenciosamente enquanto o magma reorganizava as tensões na crosta.
Isso oferece uma possível explicação para o chamado déficit sísmico observado em dorsais oceânicas.
O evento mostra como nasce a crosta que cobre grande parte da Terra
As dorsais médio-oceânicas formam uma rede com aproximadamente 65 mil quilômetros ao redor do planeta.
É ao longo dessa enorme cadeia submarina que novas placas litosféricas se formam e começam a se afastar. O artigo da Nature destaca que cerca de dois terços da superfície terrestre foram criados ao longo desse sistema de dorsais.
O mecanismo geral era conhecido.
Assista o vídeo
O material quente do manto ascende. A redução de pressão favorece a fusão parcial. O magma sobe, invade a crosta e eventualmente chega ao fundo oceânico, onde esfria e solidifica. Ao mesmo tempo, falhas ajudam a acomodar a separação entre as placas.
O problema era observar todas essas etapas acontecendo juntas e medir diretamente os movimentos horizontal e vertical durante um único evento.
Segundo o Institut Universitaire Européen de la Mer, ligado à Universidade da Bretanha Ocidental e ao CNRS, foi justamente isso que a equipe conseguiu registrar perto da ilha Amsterdam: uma expansão rápida da dorsal acompanhada pelo processo de formação de nova crosta oceânica.
Pela primeira vez, os cientistas estavam com a instrumentação pronta quando a crosta cedeu
Eventos semelhantes já haviam sido reconstruídos a partir de terremotos, erupções submarinas, mapas produzidos antes e depois de uma crise ou medições parciais.
A diferença de 2024 foi a presença simultânea dos instrumentos necessários.
Os hidrofones captaram a migração da sismicidade. Os transponders mediram mudanças horizontais de distância. O sensor de pressão registrou o afundamento vertical. Os levantamentos batimétricos revelaram posteriormente onde a lava havia alterado o relevo submarino.
A Nature Portfolio classificou o trabalho como a primeira observação in situ desse tipo de evento reunindo essas diferentes medições e ressaltou que a velocidade do movimento chegou a valores excepcionais logo após o início da crise antes de cair drasticamente nos dias seguintes.
A equipe havia montado, na prática, um observatório sobre uma máquina geológica cujo próximo grande movimento ninguém sabia prever.
Dois meses depois, ela entrou em funcionamento diante dos sensores.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

