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Gigante da siderurgia brasileira pisa no freio em Minas Gerais após minério cair abaixo de US$ 100 e frete para a China explodir, paralisa planta ligada a até 35% da produção e deixa cerca de 300 trabalhadores com o emprego por um fio
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 09/09/2026 às 19:22
Atualizado em 09/09/2026 às 19:51
Mineração
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A paralisação temporária da unidade de Samambaia, em Itatiaiuçu, expõe uma operação cada vez mais pressionada pela dependência das exportações e pela perda de rentabilidade, enquanto outras estruturas seguem funcionando e a empresa ainda não informa quando pretende retomar a atividade.
Uma das maiores operações minerais ligadas à siderurgia brasileira colocou o pé no freio em Minas Gerais. A Mineração Usiminas suspendeu temporariamente a planta de beneficiamento de Samambaia, em Itatiaiuçu, diante de uma combinação que começou a corroer a viabilidade econômica da produção.
De um lado, o minério de ferro caiu para a faixa inferior a US$ 100 por tonelada. Do outro, transportar esse mesmo minério do Brasil até a China passou a consumir uma parcela cada vez maior do valor da carga.
O problema ganha outra dimensão porque aproximadamente 80% do volume produzido pela operação tem o mercado externo, principalmente a China, como destino. Com o frete disparando justamente na principal rota utilizada pela companhia, manter parte da produção funcionando deixou de fechar a conta.
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Planta paralisada responde por aproximadamente 30% a 35% da produção de minério
A suspensão ocorreu em 2 de setembro de 2026 e atingiu especificamente a planta de beneficiamento de Samambaia.
A unidade representa aproximadamente 30% a 35% da produção de minério de ferro da Mineração Usiminas, segundo informações divulgadas após a decisão.
Isso não significa que toda a atividade minerária da empresa em Itatiaiuçu tenha sido interrompida. A Mina Oeste e a planta de Flotação permanecem operando, enquanto Samambaia ficará parada até que o cenário econômico volte a justificar sua utilização.
O ponto que chama atenção é justamente o tamanho da instalação dentro da operação. Considerando uma produção anual próxima de 9 milhões de toneladas, a parcela associada a Samambaia poderia representar algo na faixa de milhões de toneladas por ano.
Minério abaixo de US$ 100 deixou muito menos espaço para absorver os custos
O minério de ferro chegou ao início de setembro negociado próximo de US$ 99,33 por tonelada, depois de permanecer sob pressão no mercado internacional.
Para uma empresa que vende minério internacionalmente, uma cotação mais baixa já significa perda de receita potencial por tonelada embarcada. Mas, isoladamente, esse não foi o único problema enfrentado pela Usiminas.
O verdadeiro aperto veio quando a queda do produto ocorreu simultaneamente a uma escalada do custo para colocá-lo dentro de um navio e enviá-lo à Ásia.
Frete Brasil-China saltou para perto de US$ 35 a US$ 36 por tonelada
O transporte marítimo na rota entre Brasil e China, que chegou a circular na faixa de US$ 22 a US$ 23 por tonelada, avançou para aproximadamente US$ 35 a US$ 36, depois de registrar momentos próximos de US$ 37 a US$ 38.
Na prática, enquanto o minério passava a valer menos, levá-lo até seu principal comprador passou a custar muito mais.
É uma combinação especialmente perigosa para operações com forte exposição ao mercado externo. O frete, que historicamente representava algo próximo de 20% do preço do minério, chegou a se aproximar de 37% em determinados cálculos de mercado.
Em outras palavras, uma fatia enorme do valor obtido com o próprio minério poderia desaparecer apenas no caminho entre o Brasil e o comprador asiático.
Antes da paralisação, os números da Usiminas já mostravam que a margem estava sendo comprimida
Os sinais de deterioração não começaram em setembro.
Nos resultados referentes ao segundo trimestre de 2026, a própria Usiminas já reconhecia que o custo do frete marítimo estava pressionando sua divisão de mineração.
Entre o primeiro e o segundo trimestre, a tarifa média de transporte marítimo utilizada pela companhia avançou aproximadamente 35%, saindo de cerca de US$ 24,9 por tonelada para US$ 33,7.
Ao mesmo tempo, a receita líquida por tonelada da operação de mineração recuou 12,5%, passando de aproximadamente R$ 402 para R$ 351.
A empresa já estava, portanto, recebendo menos por tonelada ao mesmo tempo em que gastava significativamente mais para chegar ao mercado que compra grande parte de sua produção.
EBITDA da mineração despencou quase 36% em apenas um trimestre
O impacto apareceu diretamente nos resultados.
O EBITDA ajustado da Mineração Usiminas caiu de R$ 111 milhões no primeiro trimestre para R$ 71 milhões no segundo trimestre de 2026.
Isso representa uma retração de aproximadamente 35,9% em apenas três meses.
A margem EBITDA ajustada também encolheu, saindo de 14,2% para 8,2%.
O movimento ajuda a entender por que a administração decidiu retirar temporariamente do jogo uma instalação responsável por uma parcela tão relevante da capacidade produtiva.
Não se trata apenas de vender minério mais barato. Trata-se de vender mais barato enquanto um dos maiores custos da exportação avança rapidamente.
Cerca de 80% do minério depende principalmente do mercado chinês
Talvez este seja o ponto mais sensível de toda a decisão.
A operação de mineração ligada à Usiminas possui forte dependência das exportações. Aproximadamente 80% da produção segue para o mercado externo, principalmente para a China, enquanto uma parcela menor permanece no Brasil.
Cerca de 20% abastece a unidade siderúrgica da própria Usiminas em Ipatinga, em Minas Gerais.
Por isso, a paralisação de Samambaia atinge essencialmente uma produção muito ligada ao mercado internacional e, segundo as informações disponíveis, não deve comprometer o fornecimento necessário para a siderúrgica de Ipatinga.
Ainda assim, a situação expõe uma fragilidade que vai além da Usiminas: quando a China compra menos, paga menos ou se torna mais cara de alcançar, parte da mineração brasileira sente o impacto quase imediatamente.
China compra o minério, mas o Brasil assume boa parte do risco quando a conta deixa de fechar
Por décadas, a demanda chinesa ajudou a transformar o minério brasileiro em uma das grandes fontes de receita de exportação do país.
O problema aparece quando a dependência comercial cresce a ponto de mudanças do outro lado do mundo começarem a determinar quais plantas brasileiras continuam funcionando.
Samambaia oferece um exemplo claro desse risco.
O minério está em Minas Gerais, a estrutura produtiva está instalada no Brasil e os trabalhadores são brasileiros. Mas a viabilidade de manter parte da produção funcionando passou a depender diretamente do valor pago no mercado internacional e do custo para atravessar o oceano até a Ásia.
Quando esses dois indicadores caminham na direção errada simultaneamente, a resposta empresarial pode chegar dentro de municípios brasileiros na forma de produção reduzida, investimentos adiados e empregos afetados.
Paralisação já provocou desligamentos, mas Usiminas não informa quantidade
Há ainda uma consequência mais imediata para Itatiaiuçu e cidades da região.
A Usiminas confirmou que a mudança operacional veio acompanhada de desligamentos, mas não informou oficialmente quantos trabalhadores foram atingidos.
Fontes locais apresentaram números diferentes. Há relatos mencionando aproximadamente 300 desligamentos, enquanto outras informações extraoficiais apontam impacto potencial maior quando trabalhadores próprios e terceirizados são considerados.
Como não existe até agora um número consolidado divulgado pela empresa, essas estimativas não podem ser tratadas como quantidade oficial.
A Mineração Usiminas mantém mais de 4 mil trabalhadores entre funcionários próprios e terceirizados, o que ajuda a dimensionar a importância da atividade para Itatiaiuçu e municípios próximos.
Empresa não colocou prazo para Samambaia voltar a produzir
Outro sinal de incerteza é a ausência de uma data definida para a retomada.
A paralisação foi anunciada como temporária, mas Samambaia não possui um calendário público para voltar à operação.
A decisão dependerá da evolução das condições econômicas, especialmente preço internacional do minério e custo do transporte marítimo.
Isso significa que a planta pode permanecer parada enquanto produzir e exportar aquele volume continuar representando uma equação pouco atraente para a companhia.
Um alerta que vai muito além de uma planta parada em Minas Gerais
O episódio envolvendo a Usiminas não significa que a mineração brasileira tenha entrado em colapso, nem que toda a produção da companhia esteja sendo interrompida.
Mas o tamanho da unidade paralisada e a velocidade da deterioração econômica funcionam como um sinal de alerta.
Uma planta ligada a até 35% da produção foi retirada temporariamente de operação, o EBITDA da mineração já havia caído quase 36% em um trimestre, o frete para a China disparou e trabalhadores começaram a ser desligados.
No centro de tudo está uma pergunta desconfortável para uma das atividades mais importantes da economia mineral brasileira: até que ponto uma operação instalada em Minas Gerais consegue permanecer protegida quando a maior parte de seu minério depende de atravessar o mundo para chegar a um único mercado consumidor?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

