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Peixe de 15 cm com boca cheia de dentes de “vampiro” aparece 1.400 km longe de onde cientistas esperavam, vive nos trópicos e ganha apelido improvável: “Drácula vegano”
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 09/09/2026 às 19:13
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Lampreia australiana passou anos escondida sob a areia, não suga sangue apesar da aparência assustadora e pode representar o último refúgio de uma espécie ameaçada. Pesquisadores ainda suspeitam que outros dois peixes encontrados em Queensland sejam espécies novas para a ciência
Um peixe sem mandíbula, com sete aberturas branquiais e fileiras circulares de dentes afiados, apareceu num riacho de uma ilha australiana a aproximadamente 1.400 quilômetros ao norte de onde sua espécie havia sido documentada. A aparência lembra um pequeno monstro pré-histórico, porém existe uma reviravolta: ele não usa aqueles dentes para sugar sangue nem arrancar carne. Conforme informações publicadas pela Griffith University em 21 de agosto de 2026, pesquisadores passaram a chamar a lampreia-australiana (Mordacia praecox) de “Drácula vegano”, enquanto um novo financiamento de A$ 90.116 permitirá procurar populações escondidas em Queensland e investigar outros dois animais que podem representar espécies ainda desconhecidas pela ciência.
Além disso, o primeiro encontro que desencadeou essa investigação aconteceu por acaso. Em 2022, o ecólogo aquático Luke Carpenter-Bundhoo participava de um levantamento em K’gari, antiga Fraser Island, para estudar os impactos dos incêndios conhecidos como Black Summer quando encontrou durante uma amostragem um animal semelhante a uma enguia. Ao perceber as sete aberturas branquiais, identificou imediatamente uma lampreia — e então surgiu o problema: aquele peixe simplesmente não deveria estar ali segundo a distribuição conhecida na época.
A surpresa aumentou porque a espécie era associada a águas mais frias. Entretanto, os pesquisadores agora sabem que lampreias vivem em Queensland e foram registradas até a região de Rockhampton. Carpenter-Bundhoo afirma que isso transforma Queensland no lar da primeira lampreia tropical conhecida do mundo. Ao mesmo tempo, a descoberta ganhou importância para conservação porque a espécie chegou a ser considerada desaparecida de sua distribuição original no sul, levantando a possibilidade de Queensland funcionar como seu último grande refúgio conhecido.
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Paulo Nogueira
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Ele olhou para o riacho e encontrou uma criatura que, segundo os registros conhecidos, deveria estar 1.400 km mais ao sul
Carpenter-Bundhoo não estava procurando lampreias naquele dia. O trabalho em K’gari tinha outro objetivo: avaliar como os grandes incêndios australianos haviam afetado ecossistemas aquáticos da ilha.
Então surgiu um animal pequeno e comprido.
Segundo o pesquisador, a criatura lembrava uma enguia e possuía sete aberturas branquiais. Assim, ele percebeu rapidamente que estava diante de uma lampreia. Porém, sua primeira reação foi se perguntar o que aquele animal fazia ali.
Até então, a Mordacia praecox tinha sua ocorrência documentada em riachos próximos à divisa entre Nova Gales do Sul e Victoria, cerca de 1.400 km ao sul. Consequentemente, encontrar o peixe em K’gari não significava apenas acrescentar um ponto no mapa: mudava radicalmente a compreensão sobre a extensão geográfica da espécie.
Além disso, lampreias são extremamente discretas. Durante parte importante da vida, elas permanecem enterradas no sedimento, comportamento que ajuda a explicar como populações inteiras podem passar despercebidas mesmo em locais visitados por pessoas.
Agora, justamente por não saber exatamente onde esses animais estão, a equipe recebeu recursos para procurar em riachos remotos e difíceis de acessar.
A boca parece saída de um filme de terror, mas o “vampiro” passa anos filtrando algas e depois simplesmente para de comer
O apelido funciona porque existe uma contradição visual difícil de ignorar.
A boca de uma lampreia possui uma estrutura circular repleta de dentes. Muitas espécies realmente são parasitas: prendem-se a outros peixes e se alimentam de seus tecidos ou fluidos.
A lampreia-australiana estudada pela equipe de Griffith, porém, segue outro caminho.
Ela é não parasitária.
Por isso, Carpenter-Bundhoo descreveu esses animais como os “vegan Draculas of lampreys” — algo como os “Dráculas veganos das lampreias”.
O curioso é que sua alimentação muda completamente durante o desenvolvimento. Nos primeiros três a quatro anos de vida, as larvas permanecem sem visão no fundo dos riachos e filtram algas microscópicas da água.
Depois acontece a metamorfose.
Quando chegam à fase adulta, esses animais param de se alimentar. Em vez disso, passam a dedicar suas reservas à reprodução e morrem aproximadamente oito meses depois, segundo os pesquisadores.
Portanto, apesar dos dentes ameaçadores, uma pessoa nadando num riacho não precisa temer que o pequeno animal tente atacá-la.
Na verdade, ele provavelmente estará mais interessado em permanecer escondido.
Esse contraste entre aparência e comportamento aparece frequentemente na natureza: características que parecem assustadoras aos olhos humanos podem cumprir funções muito diferentes. É justamente essa diversidade de adaptações biológicas que torna espécies pouco conhecidas especialmente interessantes para pesquisadores.
A espécie existe há tanto tempo que sua linhagem se separou da nossa há cerca de 485 milhões de anos
A aparência pré-histórica não é apenas impressão.
Lampreias pertencem a uma linhagem extremamente antiga de vertebrados sem mandíbula. Segundo Carpenter-Bundhoo, a separação evolutiva entre a linhagem que levaria aos humanos e aquela das lampreias remonta a aproximadamente 485 milhões de anos.
Além disso, o pesquisador afirma que a forma básica desses animais mudou relativamente pouco ao longo de períodos imensos.
Ele chega a fazer uma comparação provocativa com outro ícone australiano: o peixe-pulmonado.
Embora o peixe-pulmonado seja frequentemente chamado de “peixe dinossauro”, Carpenter-Bundhoo observa que as lampreias já existiam antes dos dinossauros e sobreviveram ao período em que eles dominaram o planeta.
Por isso, estudar esses animais oferece algo parecido com uma janela para etapas muito antigas da evolução dos vertebrados.
Entretanto, isso não significa que uma lampreia moderna seja literalmente idêntica aos ancestrais de centenas de milhões de anos atrás. Evolução continua ocorrendo. A comparação usada pelos pesquisadores se refere principalmente à antiguidade extraordinária da linhagem e à conservação de características corporais fundamentais.
Ainda assim, o contraste impressiona: um animal de apenas 15 centímetros carrega uma história evolutiva que começou centenas de milhões de anos antes do aparecimento da nossa espécie.
Durante décadas, cientistas associaram lampreias a águas frias; agora uma população tropical obriga pesquisadores a rever essa ideia
A localização também desafia uma suposição importante.
Lampreias eram tradicionalmente associadas a ambientes de águas mais frias. Porém, os registros em Queensland mostram que esses animais conseguem existir muito mais ao norte do que se acreditava.
Segundo Carpenter-Bundhoo, eles estão presentes até a região de Rockhampton há mais de uma década. Assim, ele afirma que Queensland possui tecnicamente a primeira lampreia tropical do mundo.
Essa informação abre várias perguntas.
Como esses animais toleram temperaturas maiores? As populações do norte apresentam adaptações fisiológicas próprias? Elas pertencem exatamente à mesma espécie encontrada mais ao sul? E até onde realmente se estende sua distribuição?
O novo projeto tentará responder parte dessas questões.
Além disso, entender tolerância térmica ganhou relevância num cenário de aquecimento climático. Porém, encontrar lampreias em regiões tropicais não significa que elas estejam protegidas das mudanças climáticas.
Temperatura representa apenas uma das pressões possíveis. Alterações no fluxo dos rios, qualidade da água, sedimentação, incêndios, perda de habitat e eventos extremos também podem afetar populações pequenas e isoladas.
Por isso, descobrir que um animal suporta água mais quente é apenas o começo da investigação.
A maior surpresa talvez ainda esteja dentro do laboratório: dois peixes menores podem obrigar a Austrália a aumentar de três para cinco suas espécies conhecidas
O caso fica ainda mais interessante porque Mordacia praecox talvez não esteja sozinha.
Atualmente, a Austrália possui três espécies reconhecidas de lampreias, enquanto existem aproximadamente 50 espécies conhecidas no mundo. A lampreia-australiana está entre as menores: chega a aproximadamente 15 cm, enquanto algumas espécies internacionais alcançam 1,2 metro.
Porém, a equipe possui duas outras formas ligeiramente menores em seus laboratórios.
Os pesquisadores acreditam que esses animais podem representar duas espécies ainda não descritas pela ciência.
Se análises taxonômicas confirmarem essa hipótese, a conta australiana mudará de três para cinco espécies conhecidas de lampreias.
Mais surpreendente ainda: três delas estariam em Queensland.
Entretanto, aqui também existe uma cautela fundamental. Os dois animais ainda não são oficialmente novas espécies. A equipe precisa confirmar suas características e publicar a descrição taxonômica necessária.
Portanto, o correto neste momento é dizer que existem duas potenciais espécies não descritas, e não anunciar que cientistas já descobriram formalmente duas espécies novas.
Esse tipo de confirmação cuidadosa é essencial na ciência. Afinal, diferenças de tamanho ou aparência não bastam, sozinhas, para estabelecer uma nova espécie; pesquisadores precisam reunir evidências e comparar os animais com táxons conhecidos.
O peixe pode estar escondido debaixo dos pés de banhistas sem que ninguém perceba — e justamente isso virou um problema para protegê-lo
A habilidade de desaparecer ajudou essas lampreias durante milhões de anos.
Agora, porém, dificulta sua conservação.
Durante a fase larval, elas passam anos enterradas no fundo de riachos. Além disso, mesmo os adultos possuem tamanho reduzido e podem ocorrer em áreas remotas. Consequentemente, detectar uma população exige levantamentos específicos.
Isso cria uma situação complicada.
Como proteger um animal se ninguém sabe exatamente onde ele vive?
Gestores ambientais precisam conhecer a distribuição de uma espécie antes de avaliar impactos de obras, alterações de cursos d’água ou outras intervenções. Entretanto, no caso das lampreias de Queensland, o mapa ainda possui enormes lacunas.
Por isso, o financiamento de A$ 90.116 do programa estadual Protecting Queensland’s Threatened Species Applied Research Grant permitirá que a equipe faça novas amostragens em áreas remotas. Carpenter-Bundhoo trabalhará com David Moffatt, cientista principal do departamento ambiental de Queensland.
A intenção é descobrir onde existem populações estabelecidas e, dessa maneira, criar melhores condições para protegê-las.
Assim, os pesquisadores acreditam que os poucos locais já conhecidos podem representar apenas “a ponta do iceberg”.
Há uma possibilidade inquietante: o lugar onde a espécie era conhecida perdeu seus animais, enquanto Queensland pode ter virado seu último refúgio
O levantamento também ganhou urgência porque a história da espécie no sul não é boa.
Segundo Carpenter-Bundhoo, a lampreia-australiana chegou a ser considerada extinta em sua distribuição original, enquanto as populações encontradas em Queensland podem representar o principal — e talvez último — refúgio restante.
Isso muda completamente a importância da descoberta de K’gari.
Inicialmente, encontrar uma lampreia 1.400 km distante parecia apenas uma anomalia biogeográfica.
Entretanto, se populações do sul realmente desapareceram, os animais tropicais passam a ter enorme valor para conservação.
Além disso, pequenas populações isoladas podem ser particularmente vulneráveis a mudanças ambientais locais. Uma alteração em poucos riachos pode atingir uma parcela relevante dos indivíduos conhecidos.
Por isso, mapear novas populações é fundamental.
A lógica também aparece em outras histórias de conservação: descobrir onde uma espécie ainda consegue sobreviver frequentemente é o primeiro passo para decidir quais ambientes precisam de proteção prioritária.
No caso da lampreia, entretanto, existe uma dificuldade adicional: os animais podem permanecer literalmente enterrados enquanto pesquisadores passam por cima deles.
DNA de uma criatura tão antiga pode funcionar como uma versão primitiva do “manual de instruções” dos vertebrados
A importância científica das lampreias não termina na conservação.
Sua posição evolutiva faz desses animais organismos especialmente interessantes para pesquisas sobre genética, desenvolvimento e funcionamento dos vertebrados.
Carpenter-Bundhoo compara o DNA das lampreias a uma versão antiga do “manual de instruções” dos vertebrados, anterior a centenas de milhões de anos de mudanças evolutivas.
Ao comparar mecanismos presentes nesses animais com aqueles encontrados em organismos mais complexos, pesquisadores podem investigar como determinadas estruturas e sistemas evoluíram.
Consequentemente, lampreias são utilizadas como organismos-modelo em diferentes linhas de pesquisa.
A Griffith University menciona inclusive o potencial de estudos dessa biologia para ajudar a compreender saúde e doenças humanas. Porém, essa frase precisa ser interpretada com cuidado.
Isso não significa que o “Drácula vegano” tenha produzido uma cura ou tratamento médico.
Também não significa que exista atualmente um medicamento desenvolvido a partir dessa população de Queensland.
O valor está na pesquisa básica: compreender um vertebrado evolutivamente distante pode revelar mecanismos biológicos fundamentais que ajudam cientistas a interpretar organismos mais complexos.
É uma lógica semelhante à de muitas descobertas científicas aparentemente distantes de aplicações práticas. Primeiro, pesquisadores compreendem o mecanismo. Depois, eventualmente, esse conhecimento pode gerar novas hipóteses e tecnologias.
O financiamento de A$ 90 mil não serve para “criar” novos peixes: ele vai tentar descobrir quantos existem e onde eles conseguiram permanecer escondidos
O novo recurso veio do programa Protecting Queensland’s Threatened Species Applied Research Grant, do governo de Queensland.
O valor concedido a Carpenter-Bundhoo é de A$ 90.116.
Com o dinheiro, pesquisadores poderão retornar a K’gari e explorar outros ambientes considerados promissores.
Além disso, haverá análises laboratoriais para entender melhor os animais encontrados e investigar a taxonomia das duas possíveis espécies novas.
O objetivo imediato, portanto, não é criar uma população em cativeiro nem iniciar reintroduções.
Primeiro, a equipe precisa responder questões muito mais básicas.
Onde eles vivem?
Quantas populações existem?
Até onde chegam?
Os pequenos exemplares encontrados realmente pertencem a espécies diferentes?
Somente depois dessas respostas será possível compreender melhor o grau de ameaça e quais medidas de conservação fazem sentido.
Por isso, o projeto representa uma espécie de corrida para encontrar animais que podem estar vivendo escondidos em Queensland há muito tempo.
O apelido “Drácula vegano” funciona, mas existe uma precisão curiosa: o adulto nem sequer come
Talvez a melhor ironia da história esteja no próprio apelido.
“Drácula” remete imediatamente à boca circular repleta de dentes e às espécies de lampreias que se fixam em outros animais.
“Vegano”, por outro lado, destaca que essa espécie não atravessa uma fase parasitária de alimentação.
Entretanto, biologicamente, a história é ainda mais estranha.
Quando larva, o animal permanece no fundo do riacho e filtra partículas microscópicas, incluindo algas.
Depois da metamorfose, quando adquire sua aparência adulta, para de comer completamente.
Ou seja, justamente na fase em que seus dentes parecem mais ameaçadores, ele não está procurando uma presa.
Ele está se preparando para reproduzir.
Depois disso, morre.
Essa estratégia de vida ajuda a mostrar como características visuais podem enganar completamente a percepção humana sobre um animal. Algo semelhante acontece com diferentes mecanismos naturais de sobrevivência, nos quais aparência, comportamento e função nem sempre seguem aquilo que intuitivamente imaginamos.
Um animal que atravessou centenas de milhões de anos agora depende de pesquisadores encontrarem pequenos riachos antes que suas populações desapareçam
A história começou com um peixe inesperado capturado durante um estudo que nem sequer procurava lampreias.
Quatro anos depois, aquele encontro mudou o mapa conhecido de uma espécie.
A Mordacia praecox apareceu 1.400 km ao norte de sua distribuição documentada, mostrou que lampreias podem sobreviver em águas tropicais e levantou a possibilidade de Queensland abrigar o último refúgio importante de uma espécie ameaçada. Ao mesmo tempo, dois outros animais ainda sem descrição formal podem aumentar de três para cinco o número de espécies australianas conhecidas.
Agora, os A$ 90.116 permitirão que a equipe procure em locais onde esses peixes podem ter permanecido escondidos durante décadas.
Talvez encontrem populações numerosas.
Talvez descubram que elas ocupam apenas poucos riachos.
Ou talvez confirmem espécies que a ciência ainda nem conseguiu nomear.
Por enquanto, o que existe é uma criatura de 15 centímetros, com boca de vampiro, hábitos não parasitários e uma linhagem evolutiva que atravessou eras inteiras — mas que conseguiu permanecer praticamente invisível sob a areia de riachos australianos.
E existe uma ironia difícil de superar: um dos peixes com aparência mais assustadora de Queensland passa anos filtrando alimento microscópico e, quando finalmente desenvolve sua forma adulta, deixa de comer completamente.
E você: o que acha mais surpreendente — um peixe de aparência tão assustadora não se alimentar de outros animais, ele ter aparecido 1.400 km fora da distribuição conhecida ou a possibilidade de ainda existirem duas espécies semelhantes esperando para serem oficialmente descritas?
Fonte
Griffith University
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

