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Japão vai transformar o antinavio supersônico ASM-3ER em caçador de aviões-radar e de reabastecedores inimigos a longa distância, e o novo papel entra no orçamento já no ano fiscal de 2027
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 03/09/2026 às 19:01
Atualizado em 03/09/2026 às 19:05
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O Japão decidiu dar um segundo emprego ao seu míssil antinavio mais rápido e vai transformar o ASM-3ER em caçador de aviões-radar e de reabastecedores inimigos a longa distância, num movimento que ataca justamente aquilo que faz uma força aérea adversária enxergar longe e voar por muito tempo.
O plano apareceu no pedido de orçamento do Ministério da Defesa japonês para o ano fiscal de 2027, divulgado em 31 de agosto de 2026, e foi detalhado pelo portal Naval News. Segundo o documento, o país começa a produção em série e a aquisição do ASM-3ER já a partir do próximo exercício fiscal, agora com capacidade dupla.
A arma não é nova, mas as características explicam a escolha. O ASM-3ER voa a Mach 3, ou seja, cerca de três vezes a velocidade do som, e tem alcance superior a 400 quilômetros em missão antinavio. A propulsão usa um sistema chamado ramjet integrado, no qual o motor-foguete de combustível sólido fica embutido na parte traseira do próprio ramjet. Ele é lançado pelos caças F-2 da Força Aérea de Autodefesa.
Por que mirar no avião-radar e não no caça
Aqui está, portanto, o raciocínio que dá sentido à decisão. Um caça moderno depende de dois apoios que não são armados e quase nunca aparecem em manchete. O primeiro é a aeronave de alerta antecipado, o famoso AWACS, que carrega um radar grande e enxerga muito além do que o radar do próprio caça alcança, coordenando toda a batalha aérea. O segundo é o avião-tanque, que estende o raio de ação da esquadrilha inteira.
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Segundo a doutrina aérea corrente, derrubar um caça tira apenas um caça da conta. Derrubar o avião-radar, por outro lado, cega uma formação inteira de uma vez, e derrubar o tanque encurta o alcance de todos os caças que dependiam dele para voltar para casa. São alvos grandes, lentos, previsíveis na rota e caríssimos de repor, e é exatamente por isso que costumam voar bem longe da linha de frente, protegidos.
É justamente essa distância que exige um míssil como o ASM-3ER. Mísseis ar-ar convencionais têm alcance muito menor e não conseguem atingir alvos que se mantêm recuados. Um artefato projetado para percorrer mais de quatrocentos quilômetros a Mach 3, no entanto, alcança onde a doutrina de proteção supunha estar seguro.
Aproveitar o que já existe custa menos que começar do zero
Existe uma lógica industrial por trás dessa escolha. Desenvolver um míssil ar-ar de longuíssimo alcance do zero exigiria anos de projeto, testes e integração. Adaptar um míssil que já está em produção, já foi qualificado e já voa sob a asa de um caça em serviço reduz drasticamente prazo e custo.
O trabalho, no entanto, não é trivial. Um alvo naval é lento, grande e navega em duas dimensões. Um avião voa em três, muda de altitude e manobra. Isso significa mexer no sistema de busca, na lógica de guiagem e na espoleta, que precisa detonar no momento certo perto de uma aeronave em movimento. Assim, o que se aproveita é a estrutura, o motor e a linha de montagem, e não simplesmente o software.
Além disso, o contexto geográfico ajuda a entender a urgência. O Japão é um arquipélago cercado de mar em todas as direções, o que torna a defesa aérea um problema de distância antes de ser um problema de quantidade. Recentemente, o país vem ampliando de forma consistente o orçamento de defesa e priorizando armas de alcance estendido, e este pedido entra nessa mesma linha.
Um míssil que muda onde o adversário pode voar
Por outro lado, o efeito prático de uma arma dessas costuma ser menos espetacular e mais silencioso do que se imagina. Não é sobre quantos aviões seriam derrubados numa guerra hipotética. É sobre obrigar o outro lado a recuar seus apoios ainda mais para trás, o que reduz o tempo que os caças conseguem permanecer na área e aumenta a quantidade de aeronaves necessárias para sustentar a mesma operação.
Ou seja, o ganho aparece no planejamento antes de aparecer no combate. Uma força aérea que precisa manter seu radar volante duzentos quilômetros mais longe perde cobertura, perde tempo de reação e gasta mais combustível para fazer o mesmo trabalho. Dessa forma, o míssil age como uma linha invisível traçada no mapa.
Vale registrar, isto é, o que o anúncio ainda não esclarece. O pedido de orçamento não detalha quantas unidades serão adquiridas, nem informa se o novo papel exigirá alteração de hardware no caça F-2 ou apenas atualização de sistemas. São informações que costumam sair depois, quando o orçamento é aprovado e o contrato de produção é assinado.
Enquanto isso, o próprio conceito de alvo de alto valor vem sendo revisto em várias forças aéreas. Durante décadas, o avião-radar foi tratado como peça intocável, posicionada atrás de uma barreira que ninguém conseguia atravessar. Conforme mísseis de alcance cada vez maior entram em serviço, essa barreira recua, e aeronaves grandes e caras deixam de ter um lugar realmente seguro no céu. É uma mudança que afeta o desenho das próximas gerações de aeronaves de apoio, que tendem a ficar menores, mais numerosas e menos concentradas.
Olhando assim, dá pra entender por que a notícia circulou entre publicações de defesa mesmo sendo, na origem, apenas uma linha de planilha orçamentária. Um país transformando arma naval em arma antiaérea de longo alcance é o tipo de adaptação que outros logo copiam. Queria saber o que você acha de uma arma projetada para afundar navio ganhar essa segunda vida no ar.
Faz sentido gastar um míssil de 400 quilômetros para derrubar um avião que nem atira de volta?
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Fontes
Naval News
Army Recognition
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

