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Voltaire e matemático exploram falha em loteria do governo francês, compram bilhetes baratos em massa, disputam prêmio de 500 mil livres repetidas vezes e levam autoridades a encerrar o jogo após vencerem disputa legal
Escrito por Ana Alice
Publicado em 09/09/2026 às 16:58
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Estratégia baseada nas próprias regras de uma loteria estatal reuniu matemática, investimentos em larga escala e vitórias sucessivas, até chamar a atenção das autoridades francesas.
O episódio envolveu nomes que mais tarde se tornariam célebres e terminou em disputa sobre os limites entre vantagem financeira e ilegalidade.
Uma falha matemática na loteria criada pelo governo francês permitiu que Voltaire, Charles-Marie de La Condamine e outros participantes acumulassem vitórias sucessivas, aproveitando regras oficiais que tornavam possível adquirir muitas participações de baixo custo diante de um fundo estatal elevado.
Segundo a Lapham’s Quarterly, o mecanismo estava ligado a títulos emitidos pelo Hôtel de Ville de Paris, utilizados pelo governo na administração de dívidas, enquanto o direito de participar permanecia restrito aos detentores desses papéis e seguia proporções definidas pelas próprias regras.
Falha matemática na loteria francesa
Pelas condições estabelecidas, cada mil livres em títulos davam ao proprietário o direito de comprar um bilhete por uma livre, enquanto o fundo de cada sorteio reunia a receita das vendas e outras 500 mil livres acrescentadas diretamente pelo governo francês.
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Foi nessa relação entre custo e retorno que La Condamine, matemático e cientista, identificou uma distorção importante, pois títulos de menor valor permitiam entradas relativamente baratas, embora continuassem vinculados a uma estrutura de pagamentos elevada o suficiente para favorecer compras em grande escala.
Ao perceber a oportunidade, Voltaire, que também possuía títulos do Hôtel de Ville, associou-se a La Condamine e a outros investidores, formando um sindicato capaz de concentrar capital e adquirir grande quantidade de participações sem interferir diretamente no funcionamento dos sorteios.
Em vez de depender de números previstos, manipulação de equipamentos ou informação antecipada, a vantagem surgia das próprias condições financeiras aprovadas pelo Estado, que haviam produzido uma relação favorável entre o custo das entradas e o dinheiro colocado à disposição dos vencedores.
Voltaire e La Condamine ampliam as apostas
Registros citados pela Lapham’s Quarterly indicam que Voltaire chegou a obter livros inteiros de bilhetes mediante depósito, antes mesmo de preenchê-los, circunstância que demonstra como o grupo conseguia reunir uma quantidade incomum de participações por intermédio dos tabeliães responsáveis pelas apostas.
Entre os resultados preservados, La Condamine aparece como proprietário de 13 bilhetes vencedores em um único sorteio, cada um comprado por uma livre e associado ao valor mínimo de mil livres em títulos, combinação que lhe garantiu um pagamento total de 13 mil livres.
À medida que a estratégia ganhou escala, os mesmos nomes começaram a surgir repetidamente entre os contemplados, até que, em um dos sorteios registrados, quase todo o fundo acabou dividido entre apenas 13 vencedores vinculados à operação, responsáveis por compartilhar pouco mais de um milhão de francos.
A Smithsonian Magazine também descreve a vulnerabilidade matemática e relata que Voltaire, La Condamine e seus parceiros conseguiram explorar o sistema de forma recorrente, acumulando ganhos elevados porque a estrutura dos pagamentos favorecia quem conseguia concentrar uma parcela significativa das entradas disponíveis.
Dívida pública ajudou a criar o sistema
Na origem daquele mecanismo estava uma tentativa do governo de recuperar a atratividade de títulos públicos que haviam perdido valor, em um período marcado por desconfiança nas finanças francesas e por crises anteriores que comprometeram o crédito e reduziram a procura por esses papéis.
Para organizar os sorteios, a administração exigia que tabeliães registrassem número do bilhete, identidade do participante, valor do título apresentado e preço pago, criando uma documentação detalhada que, posteriormente, permitiu às autoridades perceber a concentração incomum das vitórias entre integrantes do mesmo grupo.
Quando essa repetição ficou evidente, algumas regras foram modificadas para dificultar a continuidade da estratégia, mas a controvérsia permaneceu aberta porque Michel Robert Le Peletier des Forts, então responsável pelas finanças, tentou sustentar que o sindicato havia atuado de maneira ilegal.
A disputa deixou de ser apenas financeira quando a acusação avançou até o Conselho Real, instância que precisaria decidir se o grupo havia quebrado alguma regra ou simplesmente usado, em benefício próprio, condições que o próprio governo francês havia criado para a loteria.
Conselho Real rejeita acusação contra o grupo
Ao analisar o caso, o Conselho Real rejeitou a acusação contra os participantes e concluiu que nenhuma regra havia sido violada, transferindo o centro do problema para o desenho da loteria, cujas condições oficiais permitiram que investidores explorassem legalmente a vantagem identificada.
Depois dessa derrota administrativa, o governo encerrou a loteria, cujo último sorteio ocorreu em junho de 1730, enquanto Le Peletier deixou o cargo e os participantes mantiveram os ganhos obtidos durante o período em que a estratégia permaneceu compatível com as normas vigentes.
Conforme a estimativa apresentada pela Lapham’s Quarterly, Voltaire acumulou cerca de meio milhão de livres com a operação, montante que ampliou sua independência financeira e abriu espaço para novos investimentos, reduzindo sua dependência exclusiva da produção literária e do apoio de patronos.
Parte dessa transformação econômica apareceu posteriormente na forma como o escritor administrou sua fortuna, aplicando recursos em diferentes negócios e títulos e construindo uma autonomia incomum entre autores que, naquele período, dependiam frequentemente de cargos, favores políticos ou proteção de integrantes da elite.
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Voltaire e La Condamine exploraram uma falha matemática em loteria francesa, acumularam ganhos e levaram o governo a encerrar o jogo.
Fortuna influencia trajetória de Voltaire
Já a Smithsonian Magazine aponta que a fortuna obtida ajudou Voltaire a financiar a carreira que o tornaria uma das figuras centrais do Iluminismo, conectando um episódio de matemática financeira à trajetória intelectual que posteriormente ganhou projeção muito além das fronteiras francesas.
Sem envolver adulteração física do sorteio, o episódio passou a representar uma disputa incomum entre legalidade e vantagem matemática, pois o Estado conseguiu modificar e encerrar o sistema, mas não transformar retroativamente em fraude uma estratégia baseada em condições que ele próprio havia estabelecido.
Quando um grupo identifica uma falha matemática em regras públicas, compra participações em escala e vence repetidamente sem adulterar o sorteio, essa estratégia deve ser vista como inteligência financeira legítima ou como uma vantagem incompatível com a finalidade de uma loteria?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

