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Biodiesel brasileiro entra em teste em 16 laboratórios, movimenta 320 mil litros e mais de 20 equipamentos enquanto setor tenta abrir caminho do B15 atual para misturas de até B25
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 03/10/2026 às 13:53
Atualizado em 03/10/2026 às 13:55
Biocombustíveis Renováveis
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Programa nacional coloca motores novos e antigos sob avaliação, deve entregar uma prévia ao governo até novembro e tenta responder às dúvidas de transportadoras e postos antes de qualquer avanço obrigatório acima dos atuais 15%
O biodiesel brasileiro entrou em uma bateria de testes que pode definir até onde o país conseguirá elevar sua presença no diesel vendido nos postos. Segundo a GZH, que detalhou o programa nacional de testes do biodiesel, a iniciativa mobiliza 16 laboratórios, cerca de 320 mil litros de combustível e mais de 20 equipamentos, com uma primeira avaliação prevista para chegar ao governo até novembro de 2026.
Segundo o presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), Jerônimo Goergen, uma primeira avaliação dos resultados deverá chegar ao governo federal até novembro de 2026. Os testes foram provocados pelo próprio setor produtivo e receberam aprovação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O objetivo vai além de demonstrar que um motor consegue funcionar com mais biodiesel.
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A indústria tenta enfrentar justamente o ponto que vem travando a elevação da mistura: a necessidade de provar tecnicamente que concentrações superiores aos atuais 15% não comprometerão segurança, desempenho e durabilidade em uma frota brasileira extremamente diversa.
É por isso que motores antigos também entraram na avaliação.
Brasil já usa B15, mas qualquer avanço acima de 15% precisa passar por testes
Hoje, o diesel comercializado regularmente no Brasil contém 15% de biodiesel, combinação conhecida como B15.
A Lei do Combustível do Futuro abriu caminho para concentrações maiores, mas estabeleceu uma trava importante: o percentual obrigatório acima de 15% só pode ser definido depois de comprovada sua viabilidade técnica. O próprio Ministério de Minas e Energia reforça que os testes anteriores haviam validado o uso até B15 e que qualquer avanço precisa de nova avaliação.
O plano aprovado pelo MME foi estruturado para estudar misturas superiores a B15 e alcançar, progressivamente, o B25.
Na primeira fase, os ensaios priorizam concentrações até B20. Para determinadas medições, como emissões, também são analisadas misturas B7, B15, B20 e B25. O B15 funciona como uma das referências para comparação dos resultados.
Não é um detalhe burocrático.
A composição química do combustível interfere em estabilidade, armazenamento, emissões, sistemas de injeção, componentes do motor e comportamento ao longo de períodos prolongados de funcionamento.
Subir cinco ou dez pontos percentuais em uma lei é simples. Demonstrar que milhares de máquinas, caminhões, ônibus e equipamentos de gerações diferentes continuarão funcionando dentro dos parâmetros esperados exige outra escala de trabalho.
16 laboratórios, 320 mil litros e mais de 20 equipamentos entram no programa
A dimensão dessa avaliação começou a ficar mais clara com os números divulgados pelo setor.
De acordo com informações atribuídas a Jerônimo Goergen, o programa já mobiliza 16 laboratórios, aproximadamente 320 mil litros de combustível e mais de 20 equipamentos, com investimento informado de cerca de R$ 10 milhões.
A estratégia inclui motores mais antigos ainda em operação no país.
Essa escolha é particularmente relevante.
Uma mistura que funciona de maneira satisfatória em um caminhão recém-saído de fábrica não necessariamente produz o mesmo resultado em um motor projetado décadas atrás, com outra tecnologia de injeção, materiais diferentes e milhares de horas de uso acumuladas.
O plano oficial elaborado no âmbito do Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro foi justamente desenhado para gerar informações científicas e regulatórias suficientes para decisões futuras sobre misturas entre B15 e B25.
Transportadoras estão no centro da resistência ao aumento da mistura
Boa parte da pressão por testes mais extensos vem do transporte rodoviário de cargas.
Segundo reportagem da GZH, o setor de biodiesel busca usar os resultados para responder à resistência de transportadoras, que têm levantado questionamentos sobre a elevação da mistura no diesel.
Para uma empresa que opera centenas ou milhares de caminhões, a discussão não é abstrata.
Qualquer mudança capaz de afetar consumo, manutenção, intervalos de troca de filtros, disponibilidade da frota ou durabilidade de componentes pode representar milhões de reais em custos adicionais.
Daí a importância de uma bateria de testes que inclua não apenas medições rápidas em bancada, mas ensaios mais longos.
No Instituto Mauá de Tecnologia, por exemplo, uma das etapas utiliza ciclos de 300 horas de funcionamento para avaliar motores submetidos a maiores concentrações de biodiesel, observando desempenho e durabilidade dos componentes.
A discussão entre produtores de biodiesel e transportadores, portanto, dificilmente será resolvida apenas com argumento ambiental.
O número que mais importa para quem coloca caminhão na estrada será o comportamento real do motor.
Postos também cobram mais garantias de qualidade
O debate não termina no motor.
Postos de combustíveis também têm apresentado reclamações relacionadas à qualidade e à possibilidade de contaminação ao longo da cadeia de transporte e armazenamento.
Como resposta, entidades do setor trabalham na criação de um selo de qualidade, buscando ampliar a rastreabilidade e dar garantias adicionais ao produto entregue ao mercado.
Segundo Goergen, a estratégia foi alterar a forma como o setor vinha enfrentando as críticas, passando a investir diretamente em testes e mecanismos de certificação.
A expectativa declarada pela Aprobio é chegar até fevereiro a uma certificação voltada ao B25.
Esse movimento revela um ponto frequentemente perdido na discussão sobre biocombustíveis.
Não basta produzir mais biodiesel.
Para que uma mistura maior funcione em escala nacional, o combustível precisa preservar especificações durante fabricação, transporte, armazenamento, distribuição e uso final — atravessando uma cadeia que envolve usinas, distribuidoras, caminhões-tanque, bases, postos e o tanque do consumidor.
B15 deveria ter começado a avançar, mas cronograma ficou condicionado à validação
A legislação estabeleceu uma trajetória de aumento gradual da presença do biodiesel.
O plano inicial previa avanço de um ponto percentual ao ano, com possibilidade de chegar a 20% em 2030, mas o cronograma ficou condicionado justamente à comprovação da viabilidade técnica das misturas superiores ao B15.
O Ministério de Minas e Energia deixou isso explícito ao aprovar o programa: autorizar testes não significa declarar antecipadamente que B16, B20 ou B25 são tecnicamente viáveis.
Primeiro vêm os ensaios.
Depois, os resultados precisam ser analisados.
Só então o governo terá base técnica para decidir se altera o percentual obrigatório.
Essa sequência é particularmente importante porque o biodiesel já assumiu papel relevante na política energética brasileira, mas qualquer problema atribuído a misturas maiores poderia comprometer justamente o avanço que o setor tenta obter.
Biodiesel acima de B15 já aparece em usos voluntários
Enquanto o percentual obrigatório continua limitado ao B15, misturas superiores já começam a aparecer em operações específicas.
A ANP registra comunicações de uso voluntário envolvendo B16, B20, B25, B30, B50 e até B100, dependendo da aplicação. A lista inclui testes de emissões, frotas rodoviárias, operações ferroviárias, mineração, geração de energia e atividades marítimas.
Entre os exemplos publicados pela agência aparecem a Petrobras com B20 e B25 em testes de emissões, a Rumo com B16 em frota ferroviária, empresas utilizando B100 e a Vale com misturas B30 e B50 em caminhões.
Isso cria uma espécie de laboratório paralelo ao programa nacional.
O combustível já está sendo colocado em aplicações concretas acima dos 15%, mas o salto para uma regra obrigatória nacional exige um nível de segurança muito maior.
Próxima etapa será transformar resultado técnico em decisão sobre B20 e B25
A expectativa do setor é que o governo tenha uma primeira prévia dos testes até novembro.
O plano oficial também determina que o Ministério de Minas e Energia publique uma versão atualizada do cronograma de execução até 30 de novembro de 2026, após a consolidação da infraestrutura, motores, veículos, máquinas e demais recursos usados nos ensaios.
A partir daí, o debate deixa de ser apenas sobre quanto biodiesel o Brasil consegue produzir.
Passa a ser sobre quanto biodiesel os motores brasileiros conseguem receber com segurança.
Se os resultados confirmarem desempenho e durabilidade adequados nas diferentes aplicações testadas, o governo terá base técnica para discutir a retomada do aumento obrigatório.
Se aparecerem limitações, o cronograma poderá precisar de ajustes.
É justamente por isso que os 16 laboratórios, 320 mil litros e mais de 20 equipamentos são hoje uma das etapas mais importantes do caminho entre o B15 já conhecido pelos brasileiros e um eventual B25 nas bombas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

