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Construtora brasileira MRV quer transformar a construção de apartamentos em uma linha de montagem semelhante à de carros
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 20/10/2026 às 18:18
Atualizado em 20/10/2026 às 18:19
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MRV padroniza projetos, reorganiza canteiros e mira obras de 20 a 25 meses, enquanto defende regras capazes de reduzir custos em até 20%.
A MRV está modificando a maneira de planejar e executar seus empreendimentos residenciais para reduzir despesas e acelerar a entrega de moradias. A construtora já eliminou cerca de 70% das tipologias de empreendimentos utilizadas em seu portfólio e pretende organizar os canteiros para alcançar prazos de execução entre 20 e 25 meses. A iniciativa faz parte de uma estratégia de industrialização da construção civil, baseada na repetição de projetos, na centralização de compras e na reorganização das atividades realizadas durante as obras.
Segundo informações publicadas pela revista VEJA, a companhia também considera necessária uma maior uniformidade nas regras aplicadas às habitações de interesse social. A avaliação é que mudanças na regulamentação, combinadas com novos métodos de produção, poderiam tornar os empreendimentos mais econômicos e facilitar a utilização de soluções construtivas semelhantes em diferentes cidades.
Projeto LEGO permite à MRV construir com menos modelos de apartamentos
Uma das mudanças mais visíveis aparece em elementos que antes tinham dezenas ou até centenas de variações. É o caso das piscinas dos empreendimentos, cujos modelos foram reduzidos de aproximadamente 220 para apenas seis. A simplificação faz parte de uma revisão mais ampla dos projetos utilizados pela construtora.
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O trabalho é desenvolvido por meio de uma iniciativa interna batizada de LEGO. Em vez de criar diferentes configurações para cada empreendimento, a MRV está formando um conjunto de soluções que podem ser reaproveitadas e combinadas conforme as condições de cada terreno.
Essa estratégia abrange desde a distribuição dos apartamentos até a configuração das torres e dos espaços compartilhados pelos moradores. Com menos alternativas para administrar, a construtora consegue aproveitar projetos já desenvolvidos e diminuir a variedade de formas de alumínio necessárias à execução das estruturas.
A redução de aproximadamente 70% das tipologias utilizadas pela empresa faz parte desse processo. Além de diminuir a quantidade de soluções diferentes, a medida busca tornar o planejamento menos complexo e facilitar a repetição das atividades nos canteiros.
Projetos já aprovados impedem uma mudança imediata
Embora a revisão dos projetos já esteja em andamento, a MRV não poderá aplicar todas as alterações de uma só vez. O principal obstáculo está nos empreendimentos que passaram pela análise das prefeituras e já receberam autorização para seguir adiante.
De acordo com Ronaldo Motta, vice-presidente de Produção da construtora, modificar esses projetos pode significar a necessidade de submetê-los novamente aos procedimentos municipais de licenciamento. Dependendo do caso, isso poderia acrescentar um ou dois anos ao calendário dos lançamentos.
Por esse motivo, a empresa pretende incorporar gradualmente as novas configurações aos empreendimentos que ainda serão lançados. A expectativa é que, até 2029, a maior parte dos novos projetos já esteja adaptada ao sistema de padronização.
Dessa forma, a transformação deverá avançar conforme novos empreendimentos forem desenvolvidos, evitando que a reformulação de projetos anteriormente aprovados comprometa os prazos planejados.
MRV reorganiza canteiros com sistema inspirado na indústria automobilística
Ter menos modelos de edifícios é apenas uma parte da transformação. A construtora também está revendo a maneira como os trabalhadores executam as atividades e como os materiais chegam aos locais onde serão utilizados.
A referência vem das fábricas de automóveis, nas quais as operações seguem uma ordem planejada para evitar interrupções. Na construção residencial, entretanto, existe uma diferença importante: enquanto os veículos percorrem a linha de montagem, os edifícios permanecem no mesmo lugar durante toda a execução.
Para adaptar essa lógica aos canteiros, a MRV trabalha com um método chamado linearização. Nesse modelo, as equipes passam de uma atividade para outra conforme o avanço da construção, procurando manter um fluxo contínuo de trabalho.
Isso exige mais do que definir a ordem dos serviços. A companhia precisa garantir que os materiais estejam disponíveis quando forem necessários e que os profissionais responsáveis por cada etapa possam iniciar suas atividades no período previsto.
A organização utiliza ferramentas de planejamento que acompanham a programação das obras e identificam as necessidades de abastecimento, relacionando essas informações aos compromissos firmados com fornecedores. A intenção é diminuir o tempo perdido quando um serviço precisa ser interrompido por falta de insumos ou dificuldades na distribuição das equipes.
Construtora pretende executar até 5% de cada obra por mês
Com as etapas organizadas em uma sequência mais previsível, a MRV pretende atingir uma velocidade mensal equivalente a 4% a 5% do empreendimento. Esse é o ritmo considerado necessário pela companhia para reduzir o período de construção.
Caso a meta seja alcançada, o intervalo entre o início das fundações e a validação final dos apartamentos poderá ficar entre 20 e 25 meses. Trata-se de um objetivo da empresa, e não de um prazo que já tenha sido atingido em todos os seus empreendimentos.
Motta explica que as duas principais frentes da estratégia possuem funções diferentes. Ao diminuir a quantidade de modelos utilizados, a construtora busca principalmente controlar os custos. Já a reorganização das atividades tem impacto esperado sobre a duração das obras.
Na avaliação do executivo, é essa continuidade entre as diferentes fases de execução que permitirá avançar efetivamente para um processo de construção mais industrializado.
Quase metade das empresas utiliza alguma solução industrializada
A tentativa da MRV de transformar seus canteiros ocorre em um setor que ainda enfrenta dificuldades para abandonar práticas tradicionais de construção.
Apesar da presença de novas tecnologias, Motta observa que muitos procedimentos encontrados atualmente nas obras continuam semelhantes àqueles utilizados cinco ou dez anos atrás.
Os indicadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) ajudam a mostrar esse cenário. Atualmente, 48,2% das empresas do setor utilizam algum tipo de sistema construtivo industrializado. Isso, porém, não significa que essas soluções já sejam empregadas amplamente na produção de edifícios.
Entre 2025 e 2026, o Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC) registrou uma evolução de 14,8 para 15,7 pontos. O crescimento também apareceu no segmento específico de edificações, cujo indicador alcançou 18,8 pontos em 2026, depois de registrar 16,1 no ano anterior.
Os resultados apontam uma maior presença da industrialização no setor, mas também mostram que ainda existe espaço para ampliar sua utilização nas atividades realizadas pelos canteiros brasileiros.
Regras municipais podem influenciar redução de até 20% nos custos
Além de alterar seus próprios métodos de trabalho, a MRV defende mudanças nas exigências aplicadas à construção de moradias de interesse social. A empresa considera que diferenças nas regras municipais dificultam a repetição de soluções construtivas entre empreendimentos localizados em cidades distintas.
Segundo Ronaldo Motta, uma legislação mais uniforme poderia proporcionar uma economia estimada entre 15% e 20% nos custos de produção dos imóveis. Esse percentual depende, entretanto, da adoção de normas que permitam utilizar projetos e métodos semelhantes em diferentes municípios.
A projeção não representa uma redução de despesas já alcançada pela MRV. Trata-se de um resultado potencial associado à possibilidade de ampliar a padronização das habitações de interesse social.
Fonte
VEJA
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

