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Mais de vinte anos depois de sair da escola, Irene, de 51 anos, passou no mesmo vestibular que o filho Vitor, de 17, e os dois foram aprovados para a mesma turma de Engenharia Elétrica na Unioeste, em Foz do Iguaçu, ele em décimo na ampla concorrência e ela em segundo nas vagas para pessoas com deficiência
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 29/07/2026 às 21:33
Atualizado em 29/07/2026 às 21:38
Curiosidades
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Ela não pretendia cursar engenharia. Queria Direito. Prestou o vestibular por outro motivo: o filho tem epilepsia desde 1 ano de idade, a faculdade é longe de casa e ela decidiu tentar a mesma vaga para poder acompanhá-lo. Passou.
Irene Cecília Cagol, de 51 anos, e o filho Vitor Gabriel Cagol, de 17, foram aprovados no mesmo vestibular da Universidade Estadual do Oeste do Paraná para a mesma turma de Engenharia Elétrica no campus de Foz do Iguaçu, em fevereiro de 2024. As idades e o contexto da aprovação foram publicados pelo jornal O Presente em 21 de fevereiro de 2024, e a aprovação foi divulgada pela assessoria da própria Unioeste em 19 de fevereiro.
As duas classificações constam da lista oficial de aprovados, reproduzida pelo portal Alerta Paraná. Vitor entrou em décimo lugar na ampla concorrência, e Irene em segundo lugar nas vagas destinadas a pessoas com deficiência. Para ela, foram mais de 20 anos afastada da sala de aula desde a conclusão do ensino médio.
Ela queria Direito, não engenharia
A motivação da mãe não foi vocação, e é esse o detalhe que reorganiza toda a história.
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Segundo relato de Vitor reproduzido pelo portal Terra em 22 de fevereiro de 2024, a mãe havia comentado uma vez que, se tivesse a oportunidade, gostaria de cursar Direito. A decisão de prestar o mesmo vestibular do filho surgiu por outro motivo.
O jovem explicou que, por causa da distância até a universidade, da epilepsia dele e de outras condições de saúde que enfrenta, a mãe pensou em tentar o vestibular junto com ele. Ele disse que foi surpresa.
Irene confirmou essa origem ao Terra. Contou que a oportunidade veio pela necessidade de acompanhar o filho, e que ter passado foi uma grande surpresa para ela mesma.
A epilepsia diagnosticada a 1 ano de idade
O obstáculo que motivou o arranjo é antigo e tem efeito prático na vida escolar.
Vitor tinha apenas 1 ano quando foi diagnosticado com epilepsia, segundo relatou ao Terra. A condição impacta a coordenação motora dele, o que o torna mais lento em atividades como a escrita.
Ele contou que faz tratamento e acompanhamento médico ao longo dos anos, incluindo medicação que ajuda a retardar os sintomas. Foi com esse quadro que atravessou a educação básica, inteiramente na rede pública, segundo a mãe.
O resultado no vestibular coloca o dado em perspectiva. Um estudante com dificuldade documentada de escrita passou em décimo lugar na ampla concorrência de Engenharia Elétrica, disputando com candidatos sem essa restrição.
A fibromialgia que garantiu a vaga dela
A classificação de Irene aconteceu por uma modalidade específica de reserva, e a razão foi informada por ela.
Segundo o jornal O Presente, ela alcançou o segundo lugar nas vagas destinadas a pessoas com deficiência por ser portadora de fibromialgia, síndrome que apresenta sintomas como dores intensas pelo corpo, além de fadiga.
A lista oficial de aprovados confirma a posição. Na relação da vaga PCD para Engenharia Elétrica integral no campus de Foz do Iguaçu, o primeiro nome é Gustavo Adolfo Gunzel e o segundo é Irene Cecília Cagol.
Vale registrar um detalhe da lista que ajuda a entender o tamanho do funil. Naquele processo, a modalidade PCD do curso teve apenas dois nomes classificados, enquanto a ampla concorrência apresentou dez, o mesmo número da reserva para escola pública.
Três meses de cursinho gratuito da própria universidade
O caminho até a prova passou por um programa da própria instituição, e os dois usaram o mesmo.
Segundo o jornal O Presente, mãe e filho passaram três meses intensos no cursinho pré-vestibular gratuito oferecido pela Unioeste. O estudo também aconteceu em casa.
Para Vitor, o cursinho foi um diferencial. Em declaração publicada pelo H2FOZ em 20 de fevereiro de 2024, em texto de Paulo Bogler, ele afirmou que isso reforça a confiança dele na educação pública.
A coordenadora do cursinho no campus de Foz do Iguaçu, Berenice Borssoi Juraszek, destacou o papel da mãe no resultado. Segundo ela, Irene foi o encorajamento de Vitor e esteve sempre presente, o que a professora classificou como algo de grandiosidade humana.
Como ela passou a gostar da área
Existe um desdobramento interessante na escolha inicial pragmática, e ele aconteceu antes da prova.
Irene contou ao jornal O Presente que, no começo, escolheu Engenharia Elétrica por ser a área desejada pelo filho. A convivência com o assunto, porém, mudou o interesse dela.
Ela explicou que Vitor gosta muito de robótica e que a engenharia elétrica é a área que mais o aproxima desse interesse, permitindo desenvolver os projetos que ele já faz. Vivenciando isso ao lado dele, e sendo ensinada por ele, ela aprendeu a gostar também.
A inversão de papéis é literal. Antes de dividirem a turma, o filho de 17 anos já vinha ensinando a mãe de 51 o conteúdo do curso que os dois iriam prestar.
O que os dois disseram sobre o resultado
As reações registradas pelas publicações são diferentes entre mãe e filho, e ambas dizem algo.
Vitor descreveu a alegria como indescritível, afirmando ter orgulho de saber que a mãe foi aprovada junto com ele e no mesmo curso. Ele acrescentou que saber que venceram juntos e que terão a oportunidade de cursar e se formar juntos gera satisfação imensa.
Irene reagiu primeiro à aprovação do filho, e não à própria. Disse ter se sentido feliz e muito orgulhosa por saber que valeu a pena todo o esforço aplicado desde o início da vida escolar dele, sempre na rede pública.
Sobre ela mesma, a expectativa era mais contida. Contou ao Terra que esperava ser bem recebida e acolhida pelos outros alunos, e reconheceu que não seria fácil, porque se trata de um curso bem exigente. Ao O Presente, brincou que pretende ser a vovó da engenharia elétrica.
O que aconteceu depois
A informação de calendário mais recente que localizei é do próprio período da aprovação.
Segundo o jornal O Presente, as aulas na Unioeste deveriam começar em julho de 2024. O coordenador do curso de Engenharia Elétrica, Elídio Lobão, avaliou em declaração ao H2FOZ que seria uma experiência riquíssima para ambos e que os aproximaria profundamente.
Não localizei nenhuma publicação posterior a fevereiro de 2024 informando se os dois iniciaram o curso, se seguem matriculados ou em que semestre estão. Considerando o calendário previsto, a turma estaria hoje por volta do quarto ou quinto semestre.
O plano declarado por eles era um só. Irene afirmou acreditar que os dois vão conseguir concluir e se formar juntos.
O que fica dessa história
Uma mãe que queria Direito e prestou engenharia para poder acompanhar o filho, um adolescente diagnosticado com epilepsia a 1 ano de idade que entrou em décimo na ampla concorrência, três meses de cursinho gratuito da própria universidade e duas vagas na mesma turma. A história dos Cagol é menos sobre superação individual e mais sobre o que uma decisão prática de cuidado acabou produzindo.
E você, o que acha disso? Faria o mesmo por um filho, prestando vestibular de um curso que você nem queria só para poder acompanhá-lo? Você acha que o cursinho gratuito dentro da própria universidade pública deveria existir em todo campus do país? E mais: como você imagina que é a convivência de mãe e filho na mesma turma, com trabalho em grupo e prova no mesmo dia? Comente sua opinião, principalmente se você já estudou junto com alguém da própria família.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

