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iFood já roda em São Paulo um robô entregador que faz 35 pedidos por dia, carrega 30 quilos e aguenta 12 horas sem recarregar, e mira mil dessas máquinas até 2030 dizendo que elas vão pegar as rotas que ninguém quer
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 30/07/2026 às 00:30
Atualizado em 30/07/2026 às 00:46
Ciência e Tecnologia
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A máquina não é novidade: ela estreou em 2021 e está em teste desde 2020. Hoje são cinco unidades, e nenhuma entrega na casa do cliente. Elas fazem o trecho entre o restaurante e o ponto onde o entregador humano pega o pacote.
O presidente do iFood, Diego Barreto, anunciou a meta de ter mil robôs de entrega operando até 2030, conforme informou o portal Mobile Time em 10 de outubro de 2025, em reportagem de Henrique Medeiros. Chamado de ADA e desenvolvido em parceria com a startup Synkar, o robô entregador opera hoje na logística de shopping center, levando pedidos dos restaurantes até um hub central onde os entregadores retiram os pacotes prontos.
Na data daquela reportagem, havia três unidades em teste, nos shoppings Iguatemi de Ribeirão Preto e de Alphaville e na sede do iFood em Osasco, todas no estado de São Paulo. Juntas, elas entregavam 35 pedidos e percorriam até 10 quilômetros por dia, economizando cerca de dez minutos dos entregadores que não precisam se deslocar até os restaurantes dentro dos centros comerciais.
O robô não é novidade nenhuma
Antes de tratar a meta como anúncio de lançamento, vale acertar a cronologia, porque ela é bem mais longa do que parece.
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Segundo Thiago Viana, diretor de inovação e parcerias do iFood, os robôs da Synkar estão em teste desde 2020, dentro de uma estratégia que a empresa chama de Physical AI, a combinação de inteligência artificial com processos no mundo físico.
O site institucional do iFood informa que a ADA estreou em 2021 e recebeu esse nome em homenagem à matemática Ada Lovelace, conhecida por ter escrito o primeiro algoritmo destinado a ser processado por uma máquina. Reportagem da Gazeta do Povo de abril de 2020 já descrevia o protótipo em teste.
O número de unidades também mudou. Publicação do próprio iFood em maio de 2026 informa que existem cinco ADAs, que circulam entre o escritório da empresa e a sede da Synkar, em Ribeirão Preto.
Ou seja, a meta de mil máquinas até 2030 parte de cinco robôs depois de seis anos de teste. É esse contraste que dimensiona o tamanho do salto pretendido.
A ficha técnica
As especificações do equipamento não aparecem no anúncio da meta, mas estão documentadas em outros materiais.
Segundo o blog da NVIDIA Brasil, todos os modelos ADA em uso têm capacidade para carregar até 30 quilos em produtos, e foram construídos no Brasil com baterias de 12 horas de autonomia. Os mesmos números constam do site institucional do iFood e de reportagem do portal Mundo Logística.
O veículo é 100% elétrico. Há ainda um recurso pouco divulgado: um sistema de iluminação interna com raios ultravioleta do tipo UV-C, capaz de eliminar microrganismos no compartimento de carga, incorporado durante a pandemia.
A empresa nunca divulgou quanto investiu no desenvolvimento da tecnologia, conforme registrou a Gazeta do Povo. A Synkar, criada em 2019 em Ribeirão Preto por Matheus Theodoro, Lucas Assis e Evandro Barros, é um spin-off da startup Data H e opera no Brasil e no Canadá. O iFood se tornou acionista dela.
O que ele faz de fato, e o que não faz
Aqui está o ponto que a maioria das matérias sobre o assunto embaralha, e ele muda completamente a expectativa do leitor.
O robô entregador não vai até a casa do cliente na operação atual. Ele atua na chamada primeira milha, levando o pedido do restaurante até o ponto de encontro com o entregador humano.
O fluxo descrito por Thiago Viana é bem específico. A ADA chega ao local, um operador logístico retira o pacote, e depois o entregador chega e pega com essa pessoa. Segundo o executivo, o nível de confiança nessa relação é alto.
Há um motivo declarado para a operação estar restrita a shopping. Viana explicou que o centro comercial é um ambiente controlado, com porta, entrada e saída, o que permite rodar com segurança e risco baixo. Rua aberta é outro problema, e é justamente aí que a meta de mil unidades encontra o desafio real.
Um operador humano para cada cem robôs
A arquitetura de supervisão é o dado que explica como a empresa pretende escalar sem multiplicar equipe.
Segundo a reportagem da Mobile Time, um operador à distância pode acompanhar até 100 robôs simultaneamente. Quando surge uma situação atípica, a ADA aciona um agente virtual remoto para suporte.
A navegação combina visão computacional, sensores e mapas do local. Conforme material do próprio iFood, o robô identifica pessoas, animais e objetos em tempo real, para quando há alguém à frente, desvia com segurança e ajusta o trajeto conforme o fluxo do ambiente. Quando a bateria fica baixa, ele se desloca sozinho até a estação de recarga.
Vale fazer a conta que ninguém faz. Se um operador supervisiona cem máquinas, mil robôs exigiriam dez operadores remotos, além dos operadores logísticos que retiram os pacotes em cada ponto. Não é uma operação sem gente, é uma operação com gente em outro lugar.
O que a empresa realmente diz sobre os entregadores
Este é o ponto mais delicado da pauta, e vale reproduzir com precisão o que foi dito, sem inflar.
Thiago Viana descreveu o papel do robô como auxiliar principalmente nos momentos em que não faz sentido o entregador esperar pelo pedido. Ele deu dois exemplos concretos.
O primeiro é o condomínio fechado. Segundo ele, o entregador precisa parar na portaria e apresentar documento, procedimento que consome de cinco a dez minutos apenas para chegar até a casa do cliente, e esse é o tipo de experiência que um robô autônomo pode executar facilmente.
O segundo é a rota curta. Viana afirmou que a empresa também vê possibilidade em várias rotas de curta distância, e que poucos entregadores têm interesse em fazer esse tipo de trajeto.
Sobre o objetivo declarado, o site institucional do iFood registra que a ADA estreou para otimizar o trabalho dos entregadores e entregadoras. Fernando Martins, head de inovação da empresa, afirmou em material institucional que a máquina complementa o processo como um novo modal que se integra aos demais formatos, agilizando para o entregador.
Nenhum dos executivos citados nas publicações consultadas afirma que os robôs não substituirão entregadores. O que existe são declarações sobre complementaridade e sobre trechos específicos da operação.
Mil robôs é muito ou pouco?
A comparação internacional coloca a meta em perspectiva, e a resposta é menos óbvia do que parece.
Segundo a Mobile Time, a americana Starship tem 2 mil robôs e completou 8 milhões de entregas em abril de 2025, e a Serve Robotics pretendia colocar 2 mil unidades em operação com a DoorDash até o fim daquele ano. Ou seja, duas empresas já operavam o dobro da meta que o iFood colocou para 2030.
Questionado se mil era número modesto, Viana respondeu que está longe do que o iFood quer alcançar. Segundo ele, o sentido de colocar essa meta é sinalizar que a empresa encontrou uma forma de operar o formato, e que a questão é menos o número e mais a visão de tornar aquilo escalável.
Ele também deu um argumento operacional interessante sobre por que não escalar já. Se a empresa precisasse garantir que nenhum entregador ficasse esperando, seria necessário um volume grande de robôs rodando hoje, o que tornaria a operação inviável. A escala pequena é deliberada e serve para aprender como escalar.
O elevador, o drone e o que vem depois
Duas frentes de desenvolvimento ampliam o alcance previsto para a máquina, e uma delas é recente.
Publicação do iFood de maio de 2026 informa que a ADA se tornou a primeira robô de delivery do Brasil a chamar elevador sozinha. Segundo Estella Araújo, da área de sustentabilidade da empresa, isso é importante para que ela possa atuar em condomínio vertical, percorrendo o trecho entre a portaria e o cliente. A mesma publicação registra que o robô já faz carregamento autônomo das próprias baterias.
A outra frente é aérea. Samuel Salomão, fundador e chief innovation officer da Speedbird Aero, disse à Mobile Time que há conversas para combinar drones e robôs em uma mesma rota, com duas possibilidades: o drone leva o pacote do shopping ao condomínio e a ADA faz a distribuição interna, ou o drone transporta a própria ADA com os pacotes até o condomínio.
O iFood retomou os testes com drone em Aracaju, com dois avanços. O equipamento passou a carregar pacote de 5 quilos, e a obtenção de licença da Agência Nacional de Aviação Civil para voos sobre áreas com circulação de pessoas reduziu o trajeto de 5 minutos para 1 minuto.
Viana mencionou o interesse em criar mais rotas com drones, possivelmente três novas em breve, citando como exemplos locais com acidente geográfico ou dificuldade de acesso, como Ilhabela e São Sebastião, no litoral norte paulista, e a conexão entre a parte insular e a continental de Florianópolis.
O que fica desse anúncio
Cinco robôs em operação depois de seis anos de teste, 30 quilos de carga, 12 horas de bateria, um operador humano para cada cem máquinas, uma meta de mil unidades até 2030 e duas concorrentes americanas que já rodam o dobro disso. O robô entregador do iFood é projeto real, mas está numa escala muito distante do que a manchete da meta sugere.
E você, o que acha? Robô que faz o trecho entre o restaurante e o ponto de coleta ajuda de verdade o entregador ou é o primeiro passo para tirar o trabalho dele? Você confiaria seu pedido a uma máquina que sobe no elevador do seu prédio? E mais: rota curta que poucos entregadores querem fazer é mesmo problema de robô, ou seria problema de remuneração? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha com entrega por aplicativo e conhece a conta dessas corridas.
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ROBÔ
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

