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Ele é advogado, tira só um mês de folga por ano, arrasta sozinho troncos de 450 quilos com um aparelho que inventou, corta tudo à mão com machado e enxó e ainda pôs uma porta em cada ponta da cabana para ter rota de fuga caso um urso invada de noite
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 30/07/2026 às 10:14
Atualizado em 30/07/2026 às 10:15
Construção
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Um mês de férias por ano é todo o tempo que ele tem para levantar uma cabana de troncos no meio da floresta russa, sozinho. O advogado inventou um dispositivo em forma de A para arrastar toras de 450 quilos e abriu duas portas na construção pensando em urso.
Max Egorov é advogado, mora em São Petersburgo, na Rússia, e construiu sozinho uma cabana de troncos em uma propriedade isolada no noroeste do país. Ele não é carpinteiro, não é construtor e não é instrutor de sobrevivência: tira um mês de folga do trabalho por ano para entrar na floresta, erguer o projeto com ferramentas básicas e filmar tudo para o canal Advoko Makes, no YouTube.
A série de vídeos foi destacada pelo site OffGrid Web, especializado em vida fora da rede. O dispositivo em forma de A que ele criou para mover toras de 450 quilos em terreno acidentado é a parte mais comentada do projeto, ao lado da decisão de instalar uma porta em cada extremidade da cabana, pensada como rota de fuga caso um urso tente invadir o local durante a noite.
Quem é o advogado por trás da cabana
O ponto de partida da história é a distância entre a profissão e o hobby. Egorov trabalha como advogado de defesa em São Petersburgo, cidade de mais de cinco milhões de habitantes, e passa a maior parte do ano em rotina urbana de escritório.
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Ele mesmo faz questão de se apresentar como sujeito comum. Não tem formação em carpintaria, não trabalha em construção civil e não dá curso de sobrevivência. É um amador com uma quantidade incomum de habilidades manuais, e é justamente esse contraste entre a mesa de trabalho e o machado que sustenta o interesse do público pelo canal dele.
Um mês de folga por ano para virar construtor
A limitação de tempo define todo o projeto. O advogado tira um único mês de folga anual do trabalho e usa esse período para caminhar até florestas remotas e trabalhar nos próprios projetos de bushcraft, prática que reúne técnicas de vida na mata com ferramentas simples.
Esse mês precisa render em duas frentes ao mesmo tempo. Além de construir, ele filma, registra o processo e depois publica no canal, o que significa parar a obra para posicionar câmera e refazer sequências. Uma cabana erguida em blocos de um mês por ano é uma obra medida em temporadas, não em semanas, e é por isso que a série de vídeos se estende por tanto tempo.
Onde a cabana fica e de onde vieram os troncos
O terreno escolhido está no noroeste da Rússia, na região dos penhascos do norte da Carélia, próximo ao Lago Ladoga, o maior lago da Europa. É uma área de floresta densa, inverno severo e acesso complicado, condição que multiplica a dificuldade de qualquer construção.
A matéria prima não foi comprada em serraria pelo advogado. Ele trabalhou com troncos de pinheiro do norte, especialmente espessos, derrubados por uma tempestade forte anos antes. Usar árvore já caída resolve dois problemas de uma vez: elimina o corte de floresta viva e entrega tronco maduro de graça, desde que exista alguma forma de arrastar aquele peso até o ponto da obra.
O aparelho em forma de A que arrasta 450 quilos
Foi essa necessidade que gerou a invenção mais comentada do projeto. Para mover as toras, o advogado montou um dispositivo em forma de A, espécie de cavalete que ergue uma das pontas do tronco do chão e permite deslocá lo por terreno irregular sem máquina.
O princípio é simples e antigo. Com uma extremidade suspensa, o atrito com o solo cai drasticamente, e a força necessária deixa de ser proporcional ao peso total da peça. É a diferença entre empurrar 450 quilos deitados no chão e conduzir 450 quilos apoiados em um ponto, e essa diferença é o que torna o trabalho solo possível.
O detalhe que o título simplifica: a motosserra
Vale uma precisão que muita gente ignora ao assistir aos vídeos. O trabalho do advogado não é feito exclusivamente com ferramenta manual. Ele usa motosserra para agilizar os cortes mais pesados e mais repetitivos, o que reduz semanas de serviço.
O restante, porém, é mão e lâmina. A maior parte do corte fino, do encaixe e do acabamento é feita com machado, formão e enxó, essa última uma ferramenta de lâmina curva usada para desbastar madeira. Motosserra para volume, ferramenta manual para precisão, divisão que qualquer carpinteiro tradicional reconheceria e que separa o projeto do purismo total sem tirar o mérito do trabalho.
Como os troncos se encaixam sem um único parafuso
A montagem da parede feita pelo advogado segue técnica tradicional de construção em madeira roliça. Em cada extremidade do tronco, ele corta encaixes grandes, que travam a peça na tora perpendicular, e ao longo do comprimento abre um entalhe plano, que acomoda a superfície do tronco de baixo.
Duas soluções complementam o sistema. Musgo é colocado dentro dos entalhes para funcionar como isolamento térmico entre as peças, técnica usada há séculos em construções desse tipo no norte da Europa. E cavilhas de madeira são marteladas em orifícios feitos nas juntas para manter os troncos alinhados. Nenhum parafuso, nenhuma cola, nenhuma placa metálica sustenta a estrutura, apenas o encaixe, o peso e a madeira travando madeira.
Duas portas e a rota de fuga pensada para o urso
O detalhe que mais chama atenção na terceira etapa da obra é a decisão de instalar portas nas duas extremidades da cabana. A justificativa dada pelo advogado tem duas partes, e a segunda é a que rende conversa.
A primeira é prática: facilita o acesso e a circulação em uma construção estreita e comprida. A segunda é de segurança. Duas saídas garantem rota de fuga caso um urso tente entrar na cabana durante a noite, cenário plausível em floresta russa e que qualquer pessoa que passa a noite sozinha naquela região precisa considerar no projeto, e não depois.
O prumo improvisado com um pêndulo num fio
A parte estrutural da porta exigiu precisão sem equipamento de medição moderno. As vigas de sustentação foram esculpidas pelo advogado a partir de toras e erguidas na vertical, e o alinhamento foi conferido com um pêndulo preso a um fio, o método mais antigo e mais confiável para achar o prumo.
O fecho do conjunto vem por cima. Um frontão instalado no topo da porta mantém as vigas de sustentação unidas, transformando duas peças soltas em um pórtico rígido. Um peso pendurado em um fio resolve o que hoje se faz com nível a laser, e o resultado precisa ser o mesmo, porque parede fora de prumo em construção de tronco não se corrige depois.
O telhado, as empenas e os erros que ele mostra
Na etapa seguinte, o advogado acrescentou mais empenas para acomodar a inclinação do telhado, elemento que define como a água e a neve vão escorrer da estrutura. Em região de inverno pesado, inclinação errada significa acúmulo de neve e risco de colapso.
Nessa parte da série ele também expõe os percalços do processo, o que é raro nesse tipo de conteúdo. Vídeo de construção geralmente mostra só o que deu certo, e mostrar o erro tem valor prático para quem tenta reproduzir a técnica, porque o problema de um construtor solo costuma ser exatamente o mesmo do outro.
O que aconteceu com a cabana depois dessa etapa
A obra descrita naquela série não parou ali. Nos anos seguintes, a cabana ganhou um telhado natural de grama resistente à água, janelas redondas de acrílico e uma porta grande feita à mão a partir de tábuas de pinheiro da região, unidas com encaixe do tipo cauda de andorinha.
O projeto virou moradia de fato para o advogado, ainda que sazonal. A construção passou a ser tratada como segunda casa dele, e as melhorias continuaram tanto na cabana quanto na área de floresta ao redor. O que começou como projeto de férias virou propriedade em manutenção permanente, e é essa continuidade que transformou a série em acompanhamento de anos, e não em vídeo único.
O canal que cresceu mais que o hobby
O alcance do trabalho dele ultrapassou em muito o círculo do bushcraft. O canal começou em setembro de 2018, com um vídeo sobre móveis esculpidos no fogo, e o canal em russo passou de um milhão de inscritos e de 100 milhões de visualizações acumuladas.
A demanda do público de fora da Rússia gerou a versão em inglês, com narração adicionada aos vídeos originais. O conteúdo mais visto dele não é sobre a cabana: é um vídeo sobre aquecer uma tenda com uma tocha de tronco, que passou de 24 milhões de visualizações. Há informação de que ele deixou a advocacia para se dedicar ao conteúdo em tempo integral, embora publicações posteriores ainda o descrevam como advogado em atividade, ponto em que os registros divergem.
A data que muda a leitura desta história
Assista o vídeo
Um registro necessário. O texto que descreve essa etapa da construção é de dezembro de 2021, e a obra era tratada ali como projeto em andamento, com quatro partes publicadas na série.
Assista o vídeo
Isso significa que a cabana descrita como inacabada já está pronta e habitada há anos. A imagem de um advogado arrastando tronco no meio do mato é o retrato de um momento específico, e não a situação atual de alguém que hoje mantém uma propriedade estruturada, com telhado de grama, janelas instaladas e uma audiência de milhões de pessoas acompanhando cada melhoria.
Você aguentaria fazer isso nas suas férias
Assista o vídeo
O caso levanta uma pergunta que vale para qualquer pessoa cansada do escritório. De um lado, existe a fantasia bem concreta de usar as férias para construir algo com as próprias mãos, longe de reunião e de telefone, com resultado visível ao fim do mês. De outro, existe o trabalho físico bruto de arrastar 450 quilos de madeira sozinho, dormir em floresta com urso por perto e voltar para a cidade com o corpo destruído.
Agora queremos ouvir você. Você trocaria o seu único mês de férias por trinta dias de obra pesada na mata, ou considera isso o oposto de descanso? E, sendo honesto, o que te impressiona mais nessa história: a habilidade manual de um advogado que passa o ano em processo judicial ou a disciplina de manter um projeto assim por anos, um mês por vez? Comenta aqui embaixo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

