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Bailarina começou ensinando dança para 50 crianças da periferia de Fortaleza, chegou a 117 alunos em nove meses e criou escola que atravessou 35 anos, recebeu reconhecimento nacional e transformou arte em formação social
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 21/08/2026 às 00:40
Atualizado em 21/08/2026 às 00:48
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Uma sala de dança, crianças aprendendo movimentos e uma coreógrafa acostumada aos palcos poderiam formar apenas mais uma turma de iniciação artística. Em Fortaleza, porém, aquela experiência ganhou uma dimensão muito maior.
O trabalho começou com 50 crianças da periferia da capital cearense. Apenas nove meses depois, 117 crianças já participavam das aulas, enquanto uma primeira apresentação havia sido preparada.
Por trás da iniciativa estava a bailarina, professora e coreógrafa Dora Andrade. A experiência mudaria também a trajetória profissional dela.
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Em 1991, nasceu a EDISCA — Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente, organização que passou a unir dança, educação e ações socioeducativas destinadas principalmente a crianças e adolescentes de comunidades populares de Fortaleza.
Tudo começou com uma contrapartida transformada em projeto social
Antes da EDISCA, Dora Andrade já havia construído uma trajetória profissional ligada à dança.
A coreógrafa estudou em diferentes cidades brasileiras e também passou por experiências de formação nos Estados Unidos, França e Espanha. Em Fortaleza, Quixadá e Sobral, estabeleceu escolas particulares e criou seu próprio grupo de dança.
Foi durante essa trajetória que surgiu a experiência que mudaria o rumo do trabalho.
Como contrapartida a apoios recebidos do Governo do Ceará, integrantes de sua companhia passaram a oferecer aulas de dança para crianças do Morro Santa Terezinha, em Fortaleza.
A experiência começou com um grupo de 50 crianças.
O que poderia ter permanecido como uma atividade pontual cresceu rapidamente. Segundo relato da própria Dora registrado pela Prefeitura de Fortaleza, nove meses depois havia 117 crianças aprendendo dança, e o grupo já havia preparado a apresentação “O Maior Espetáculo da Terra”.
Dora decidiu então reorganizar a própria vida profissional em torno daquela experiência.
EDISCA nasceu em 1991 e ampliou o significado das aulas de dança
A EDISCA começou oficialmente em 1991.
A dança permaneceu no centro da proposta, mas a instituição percebeu que trabalhar apenas a técnica artística não seria suficiente para responder às diferentes necessidades encontradas entre crianças, adolescentes e suas famílias.
Com o passar do tempo, o modelo incorporou uma estratégia de formação mais ampla.
A organização passou a associar formação artística, educação e atividades voltadas à cidadania, atendendo jovens residentes principalmente em bairros periféricos de Fortaleza.
Um estudo acadêmico sobre a instituição registrou, em determinado período de sua trajetória, aproximadamente 380 alunos entre 7 e 20 anos, provenientes de 17 comunidades da periferia de Fortaleza.
A proposta deixava claro que o palco era apenas uma das partes do trabalho.
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Formação artística passou a caminhar junto com educação e cidadania
A rotina construída pela EDISCA foi além dos ensaios.
Ao longo de sua história, diferentes programas passaram a oferecer suporte à formação educacional e social dos participantes, enquanto as aulas de dança desenvolviam técnica, disciplina, expressão corporal e capacidade artística.
Essa combinação ajudou a criar uma característica que acompanharia a instituição durante décadas: usar a arte não apenas como produto final, mas como parte de um processo de desenvolvimento humano.
O acompanhamento das crianças também se tornou mais próximo.
Dora Andrade explicou à Prefeitura de Fortaleza que a opção da instituição foi trabalhar profundamente com cada participante, procurando conhecer sua família e as dificuldades enfrentadas fora da escola de dança.
Assim, aquilo que havia começado com aulas para um pequeno grupo passou gradualmente a funcionar como um espaço permanente de formação.
“Jangurussu” mostrou que os alunos também poderiam ocupar grandes palcos
A formação logo começou a produzir espetáculos próprios.
Um dos momentos importantes aconteceu em 1995, quando a EDISCA estreou “Jangurussu”, primeiro balé da instituição apresentado com cobrança de ingressos.
A obra ganhou importância especial na trajetória do projeto.
Segundo a Prefeitura de Fortaleza, o espetáculo alcançou recorde de público no Theatro José de Alencar e provocou forte repercussão na cidade. Para Dora, aquela experiência reforçou a percepção de que uma apresentação artística poderia provocar reflexões e transformações para além do palco.
Os jovens deixavam, assim, de aparecer somente como beneficiários de uma iniciativa social.
Eles também se tornavam intérpretes e criadores capazes de ocupar espaços profissionais da cultura.
Espetáculos transformaram experiências da periferia em linguagem artística
A relação entre dança e território permaneceu presente na produção da escola.
Em vez de separar completamente formação social e criação artística, a EDISCA passou a levar para seus espetáculos experiências, questões e referências relacionadas ao universo dos próprios participantes.
Essa característica permanece visível décadas depois.
Em 2026, a instituição apresentou na CAIXA Cultural Fortaleza o espetáculo “Periferia”, com direção geral de Dora Andrade e direção artística e assistência coreográfica de Gilano Andrade.
A montagem foi construída a partir das vivências dos intérpretes e transformou trajetórias pessoais em uma narrativa coletiva sobre diferentes realidades das periferias.
O espetáculo também mostra como a ideia iniciada no começo dos anos 1990 conseguiu permanecer ligada à produção artística contemporânea.
Trabalho recebeu o Prêmio Itaú-Unicef e a Ordem do Mérito Cultural
Com a continuidade das atividades, vieram reconhecimentos fora do Ceará.
Em 2003, a EDISCA recebeu o Prêmio Itaú-Unicef, destinado a reconhecer iniciativas voltadas à educação integral de crianças e adolescentes.
Outro reconhecimento importante chegou em 2012.
Naquele ano, a escola foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural, homenagem concedida pelo Governo Federal a personalidades, órgãos e instituições com contribuições relevantes para a cultura brasileira.
A presença da EDISCA entre as instituições reconhecidas ajudou a consolidar nacionalmente um trabalho que havia começado duas décadas antes com crianças de Fortaleza.
A dança criada na periferia chegava, então, a uma das principais distinções institucionais da cultura brasileira.
Mais de três décadas depois, o projeto continua em atividade
A história não terminou com os prêmios.
Em 2026, 35 anos depois da criação da EDISCA, a instituição continuava desenvolvendo atividades e apresentando produções artísticas.
Além da temporada de “Periferia” realizada na CAIXA Cultural Fortaleza, documentos oficiais do Ceará mostram a continuidade de projetos vinculados à organização.
No resultado final de um lote do Mecenas do Ceará, publicado em março de 2026, a Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente aparece como proponente do projeto “Dança e Atitude”, autorizado no mecanismo estadual com valor de R$ 350 mil.
A documentação oferece uma dimensão especialmente simbólica da trajetória.
Uma iniciativa surgida em 1991 continuava formalmente inserida na produção cultural cearense três décadas e meia depois.
Uma experiência com 50 crianças atravessou gerações
A EDISCA começou quando Dora Andrade levou aquilo que sabia fazer — ensinar e criar dança — para um grupo de crianças da periferia de Fortaleza.
Eram 50 participantes no início.
Em nove meses, eram 117.
Depois vieram uma instituição permanente, novos programas de formação, espetáculos, apresentações, reconhecimento nacional e sucessivas gerações de crianças e adolescentes que encontraram na dança um espaço de aprendizagem e criação.
O que nasceu como uma experiência ligada a uma contrapartida cultural acabou transformando também a própria trajetória de Dora Andrade. A coreógrafa deixou suas escolas particulares e concentrou parte fundamental de sua vida profissional na construção da EDISCA.
Em 2026, o projeto completou 35 anos desde sua criação, mantendo uma ideia que atravessou sua história: a de que ensinar dança pode significar muito mais do que preparar alguém para subir ao palco.
Pode também oferecer repertório, educação, disciplina, convivência e novas possibilidades para crianças e adolescentes.
Você acredita que projetos artísticos de longa duração podem transformar as perspectivas de crianças da periferia tanto quanto outras iniciativas tradicionais de educação? Compartilhe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

