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Jovem chegou aos EUA aos 18 anos com cerca de US$ 100 e quase sem falar inglês, começou lavando pratos e trabalhando nos fundos de restaurante, entrou em aulas de idioma numa faculdade técnica, formou-se engenheiro e voltou à mesma instituição como professor, onde passou mais de 40 anos e recebeu o prêmio de ex-aluno do ano
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 10/09/2026 às 22:42
Atualizado em 10/09/2026 às 22:43
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Zahi Haddad deixou seu país em 1977 com passagem só de ida e dinheiro suficiente para pouco tempo nos Estados Unidos. Sem dominar o inglês, conseguiu trabalho lavando pratos, voltou a estudar, tornou-se engenheiro e acabou construindo uma carreira de mais de quatro décadas justamente na faculdade onde havia começado aprendendo o idioma.
Quando Zahi “Zee” Haddad subiu ao palco da formatura do Springfield Technical Community College (STCC), em Massachusetts, em 28 de maio de 2026, sua relação com a instituição já atravessava quase cinco décadas. O antigo aluno, que chegou aos Estados Unidos praticamente sem falar inglês, era agora professor de Engenharia e presidente do Departamento de Engenharia e Ciências Físicas.
Naquela noite, Haddad recebeu o 2026 Distinguished Alumnus of the Year Award, reconhecimento concedido a ex-alunos que se destacaram profissionalmente e pelo serviço à comunidade. A página oficial do prêmio confirma que o professor foi escolhido depois de mais de 40 anos de docência e atuação na faculdade.
A situação era muito diferente em 1977. Aos 18 anos, vindo da Jordânia, Haddad desembarcou nos Estados Unidos com cerca de US$ 100 no bolso, uma passagem só de ida e o objetivo de estudar Engenharia.
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Antes de chegar às salas de aula como professor, porém, precisou trabalhar onde a falta de inglês fosse menos perceptível. Isso significava permanecer nos fundos de restaurantes, lavando pratos e exercendo funções que quase não exigiam contato com os clientes.
Aos 18 anos, ele recusou uma vaga em Medicina e embarcou para os EUA com cerca de US$ 100
Haddad nasceu e cresceu na Jordânia, criado pela mãe. Ainda jovem, passou a acompanhar pelo rádio as notícias sobre Neil Armstrong e o programa espacial dos Estados Unidos, e começou a imaginar uma carreira ligada à Engenharia e, se fosse possível, à NASA.
As notas obtidas na Jordânia eram altas o suficiente para que recebesse uma oportunidade de estudar Medicina, mas essa não era a profissão que pretendia seguir. Ele queria ser engenheiro e decidiu apostar nesse caminho fora do país.
Em 28 de novembro de 1977, aos 18 anos, embarcou sozinho para os Estados Unidos. A mãe havia recorrido a dinheiro emprestado de amigos da família para conseguir comprar a passagem.
Quando chegou a Massachusetts, o inverno estava começando. Haddad alugou um pequeno apartamento no sótão de uma casa na Redlands Street, em East Springfield, onde viveria por quatro ou cinco anos, enfrentando frio intenso no inverno e calor forte durante o verão.
A falta de inglês o manteve nos fundos dos restaurantes até um comentário mudar sua prioridade
Encontrar emprego era uma necessidade imediata, mas havia uma barreira evidente. Haddad descreveu o próprio inglês daquela época como extremamente ruim, o que restringia as vagas disponíveis.
Ele trabalhou como lavador de pratos e busboy, função de apoio responsável por retirar pratos, limpar mesas e auxiliar o atendimento. Como mal conseguia conversar com clientes, buscava serviços realizados principalmente nos bastidores.
Em determinado momento, um cliente do restaurante se aproximou e disse que ele precisava aprender inglês. Em vez de simplesmente ignorar o comentário, Haddad concluiu que dominar o idioma seria indispensável se quisesse estudar e construir uma carreira no país.
Em janeiro de 1978, poucos meses depois de desembarcar nos Estados Unidos, ele começou a frequentar aulas de English as a Second Language, o ESL, no Springfield Technical Community College. Enquanto estudava, continuava trabalhando em diferentes empregos de meio período para se sustentar.
Um pedido de hambúrguer que terminou sem comida mostrou o tamanho da barreira que ainda precisava superar
Uma situação aparentemente simples ocorrida em 1978 ficou marcada na memória de Haddad. Durante a aula de inglês, ele ouviu uma colega falar sobre uma refeição que havia comprado e decorou as palavras necessárias para pedir a mesma coisa.
O jovem foi até um Burger King próximo ao campus repetindo mentalmente “Whopper, fries and a Coke”. Quando chegou ao balcão, fez o pedido, mas a funcionária respondeu perguntando se ele comeria ali ou levaria a comida.
Haddad não entendeu a pergunta. Repetiu o pedido em voz mais alta, ouviu novamente a funcionária e, sem saber como responder, saiu do restaurante sem comer.
Dois dias depois, uma colega explicou o significado daquela pergunta. Ele voltou ao Burger King, fez novamente o pedido e conseguiu concluir a compra, episódio que mais tarde passaria a tratar como uma de suas primeiras pequenas vitórias nos Estados Unidos.
Das aulas de inglês, Haddad avançou para Engenharia e conquistou dois novos diplomas
Depois do ESL, Haddad entrou no programa de transferência em Engenharia da própria STCC. Concluiu o curso associado na instituição e seguiu para uma universidade de quatro anos.
Mais tarde, obteve o bacharelado em Engenharia Elétrica pela atual Western New England University. Depois ampliou a formação com um mestrado em Engenharia Elétrica pelo Worcester Polytechnic Institute, o WPI.
O caminho acadêmico parecia colocá-lo finalmente perto da carreira que havia buscado desde a Jordânia. A realidade migratória, entretanto, criou uma nova barreira.
Mesmo com os diplomas, Haddad relatou dificuldades para conseguir contratação porque ainda não possuía autorização permanente de trabalho nos Estados Unidos. Sem perspectivas, começou a considerar seriamente voltar para seu país.
Antes de deixar os Estados Unidos, uma visita à antiga faculdade terminou com uma proposta inesperada
Antes de partir, Haddad decidiu passar pelo Springfield Technical Community College para agradecer William R. White, que havia chefiado o departamento de Engenharia. A visita alterou novamente o rumo de sua vida.
White perguntou se o antigo estudante gostaria de voltar à instituição para ensinar. Haddad não havia planejado ser professor e ainda mantinha o antigo sonho de trabalhar na área aeroespacial, mas precisava de uma oportunidade profissional.
A faculdade o patrocinou no processo que permitiu obter residência permanente, e a contratação abriu uma carreira que atravessaria as décadas seguintes. O jovem que havia entrado no campus para aprender inglês passou a ocupar o outro lado da sala de aula.
Ao longo da carreira, Haddad ensinou disciplinas como Cálculo, Física, Java, Lógica Digital e Análise de Circuitos, além de assumir responsabilidades de liderança acadêmica. Seu trabalho permaneceu concentrado principalmente nas áreas de Engenharia, ciências e STEM.
Mais de quatro décadas depois, o antigo lavador de pratos voltou ao palco como professor homenageado
A trajetória também passou a ser usada por Haddad fora das aulas tradicionais. Em setembro de 2024, por exemplo, ele participou de uma cerimônia de naturalização realizada no Springfield Armory National Historic Site e falou diante de 176 novos cidadãos americanos originários de 55 países, segundo informações divulgadas pela Prefeitura de Springfield.
A ligação com estudantes que enfrentam dificuldades semelhantes às que viveu permaneceu presente em sua carreira. Sua própria experiência reuniu vários desses obstáculos em poucos anos: imigração, pouco dinheiro, dificuldade com o idioma, empregos de baixa remuneração e incerteza sobre o direito de permanecer trabalhando no país.
Décadas depois, os resultados apareceram também dentro da família. A filha de Haddad se formou em Yale e seguiu carreira como advogada corporativa, enquanto o filho estudou no Massachusetts Institute of Technology, o MIT, instituição que esteve ligada aos antigos sonhos acadêmicos do pai.
Em 28 de maio de 2026, Haddad retornou ao palco da STCC para discursar aos formandos da 59ª cerimônia de graduação da faculdade e receber o prêmio de ex-aluno do ano. Quase cinco décadas haviam se passado desde que ele chegou a Massachusetts com cerca de US$ 100 e procurava trabalhos que pudesse realizar sem precisar conversar em inglês.
Para os novos graduados, sua mensagem se concentrou justamente no período em que as oportunidades ainda pareciam distantes. Haddad defendeu que o estudante não espere que alguém entregue o sucesso pronto, lembrando que sua própria carreira começou com trabalhos em restaurantes, aulas básicas de inglês e uma sequência de decisões tomadas sem garantia de que dariam certo.
E você, o que mais chama atenção na trajetória de Zahi Haddad, a chegada aos Estados Unidos com cerca de US$ 100, a dificuldade para aprender inglês ou o retorno à própria faculdade como professor? Deixe sua opinião nos comentários e conte se conhece alguma história semelhante. Seu relato pode ajudar a ampliar a discussão sobre estudo, imigração e oportunidades profissionais.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

