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Como a Islândia está transformando gelo, vulcões e energia geotérmica em um novo paraíso agrícola, produzindo frutas e vegetais em estufas aquecidas mesmo onde o frio domina boa parte do ano
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 21/09/2026 às 10:22
Atualizado em 21/09/2026 às 10:25
Agronegócio
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Islândia usa calor vulcânico, luz artificial e estufas para produzir tomates, pepinos e outros vegetais mesmo durante o inverno próximo ao Ártico.
Do lado de fora, a temperatura pode estar perto dos 10 °C, o vento atravessa campos quase sem árvores e o inverno traz meses com poucas horas de luz. Dentro de algumas estufas islandesas, porém, o ambiente permanece próximo de 20 °C e fileiras de tomateiros crescem até o teto.
Essa diferença resume uma transformação que parecia improvável para um país localizado perto do Círculo Polar Ártico. A Islândia começou a usar o calor disponível debaixo do próprio solo, combinado com iluminação artificial e técnicas modernas de cultivo, para produzir alimentos que antes dependiam fortemente de importação.
O segredo começa quilômetros abaixo das plantações
A Islândia está localizada sobre uma região geologicamente muito ativa. Vulcões, fontes termais e gêiseres são sinais visíveis do enorme calor existente sob a superfície.
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A água penetra no solo, encontra rochas aquecidas e retorna em temperaturas elevadas. Essa energia geotérmica já é usada no país para aquecimento, produção de eletricidade, piscinas, indústria e agricultura.
Segundo a autoridade energética islandesa, a energia geotérmica responde por mais de 60% do consumo de energia primária do país, considerando seus diferentes usos. A horticultura aparece entre as aplicações diretas desse recurso.
Foi essa disponibilidade de calor que permitiu transformar estufas cercadas por frio em ambientes capazes de manter verduras e hortaliças crescendo durante uma parte muito maior do ano.
Água quente circula pelas estufas e substitui grandes caldeiras
Em muitos países frios, manter uma estufa aquecida durante o inverno exige queimar gás, óleo ou outro combustível. Na Islândia, produtores instalados perto de fontes adequadas podem utilizar diretamente água quente de origem geotérmica.
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Um estudo da Universidade Agrícola da Islândia explica que as estufas do país possuem uma característica incomum quando comparadas às holandesas: muitas não precisam de caldeira própria para gerar o calor principal, porque recebem água geotérmica para aquecimento.
Tubos distribuem esse calor pelo ambiente. Dessa maneira, plantas que sofreriam rapidamente ao ar livre conseguem permanecer em uma faixa de temperatura favorável ao crescimento.
A tecnologia não elimina custos. Bombas, iluminação, estrutura, irrigação e mão de obra continuam necessários. A vantagem é ter acesso a uma enorme fonte local de calor em um país onde aquecer uma estufa de outra forma seria muito mais caro.
O frio deixou de ser o único problema, mas faltava resolver a escuridão
Aquecer uma planta não basta. Ela também precisa de luz para realizar fotossíntese e crescer.
No verão islandês, os dias são extremamente longos. No inverno acontece o contrário. A quantidade de luz natural cai drasticamente, criando uma barreira para produzir tomates, pepinos e pimentões durante os meses mais escuros.
A Universidade Agrícola da Islândia considera a baixa luminosidade natural o principal limite para a produção de inverno em estufas. Por isso, as estruturas modernas utilizam iluminação artificial de alta intensidade.
Em algumas instalações, as lâmpadas ficam ligadas muitas horas por dia. A combinação permite criar artificialmente aquilo que a natureza não oferece naquele momento: calor e luz suficientes.
Tomates crescem onde a temperatura externa pode ficar perto de 12 °C
Uma reportagem da DW mostrou em 2025 o caso do produtor Tómas Ponzi. Enquanto a temperatura externa estava em aproximadamente 12 °C, sua estufa permanecia perto dos 20 °C.
Ele cultiva mais de 30 variedades de tomate e fornece parte da produção para restaurantes de Reykjavík. Em vez de tentar adaptar tomateiros ao frio do campo aberto, o produtor recria as condições necessárias dentro da estrutura protegida.
Essa lógica está espalhada por diferentes propriedades islandesas. O tomate se tornou um dos símbolos mais visíveis da agricultura em estufa no país.
Não se trata apenas de demonstração para turistas. Existem milhares de toneladas de vegetais sendo retiradas dessas estruturas todos os anos.
A Islândia colheu 1.362 toneladas de tomate em 2024
Os números oficiais mostram a dimensão da produção.
Segundo o Statistics Iceland, o país produziu 1.362 toneladas de tomate em 2024, acima das 1.247 toneladas registradas em 2023. A produção cresceu mesmo em um ano marcado por condições ruins para várias culturas cultivadas ao ar livre.
O desempenho dos pimentões também melhorou. A colheita passou de 221 toneladas em 2023 para 228 toneladas em 2024.
É uma quantidade pequena diante de grandes potências agrícolas. Para um país frio, isolado no Atlântico Norte e com população reduzida, porém, representa uma capacidade de produção local que seria difícil sem o uso das estufas.
Pepinos viraram um dos maiores exemplos dessa transformação
O pepino é outro produto que conseguiu se adaptar muito bem ao sistema islandês.
Em 2023, o país atingiu uma produção recorde de 2.096 toneladas de pepinos. Em 2024, o volume ficou praticamente no mesmo nível, depois de duas décadas de crescimento constante.
Um estudo recente da Universidade Agrícola da Islândia mostra que as importações de pepino fresco são hoje pequenas quando comparadas à produção nacional. A situação é bem diferente da encontrada em outros vegetais.
Isso mostra que uma cultura antes limitada pelo clima conseguiu chegar muito perto de abastecer o próprio mercado por meio do cultivo protegido.
A mesma independência ainda não existe para todos os produtos.
Tomate ainda precisa ser importado em grande quantidade
Apesar do crescimento das estufas, a Islândia ainda está longe de produzir todos os vegetais consumidos no país.
Um relatório publicado pela Universidade Agrícola mostra que a produção doméstica responde por menos da metade da demanda de tomate fresco. Para pimentões e algumas outras culturas, a participação local é ainda menor.
Dados de comércio mostram que a Islândia importou aproximadamente 1,56 milhão de quilos de tomates frescos em 2024, principalmente da Holanda, Espanha e Marrocos.
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Isso ajuda a entender a oportunidade econômica. A agricultura protegida não precisa criar um novo mercado. O mercado já existe e atualmente é abastecido, em grande parte, por navios e aviões vindos de outros países.
Cada tonelada produzida localmente pode substituir parte desse transporte.
O cultivo em estufa praticamente dobrou desde o começo do século
A expansão não aconteceu de um ano para outro.
Estudos da Universidade Agrícola da Islândia indicam que a produção de vegetais em estufas aproximadamente dobrou desde 2000, puxada principalmente pelo crescimento de tomates e pepinos.
As estruturas islandesas costumam ser menores que grandes complexos de estufas encontrados na Holanda. Muitas possuem menos de meio hectare e algumas utilizam construções relativamente antigas.
Por dentro, porém, a tecnologia pode ser intensa.
Há irrigação controlada, iluminação artificial, enriquecimento do ar com CO₂, controle de temperatura e monitoramento constante do crescimento das plantas.
O próprio frio ajuda a combater algumas pragas
O clima extremo não traz apenas dificuldades.
O mesmo estudo sobre as estufas islandesas aponta que a incidência de determinadas pragas e doenças é relativamente baixa justamente por causa das condições frias existentes do lado de fora.
Isso não significa que a produção dispense controle fitossanitário. Pragas conseguem sobreviver dentro das estruturas aquecidas e precisam ser acompanhadas.
Mas o ambiente exterior dificulta a permanência de muitos organismos durante todo o ano.
A barreira climática que limita a agricultura tradicional, portanto, pode também reduzir parte da pressão biológica enfrentada pelas estufas.
Nem toda agricultura islandesa depende de aquecimento geotérmico
Há uma segunda transformação acontecendo longe das grandes estruturas de vidro.
Algumas propriedades trabalham com hortaliças diretamente no campo durante o curto verão ou utilizam túneis plásticos sem aquecimento para proteger as plantas do vento e aumentar um pouco a temperatura ao redor delas.
A fazenda orgânica Breiðargerði, em Skagafjörður, por exemplo, informa cultivar grande variedade de vegetais principalmente ao ar livre e também dentro de túneis sem aquecimento.
Esse método custa menos que uma estufa tecnológica. Ele não permite reproduzir o verão durante todo o inverno, mas consegue ampliar a janela de produção de espécies que toleram temperaturas mais baixas.
Cenoura, repolho, nabo e batata continuam dependendo muito do verão
Nem todos os alimentos precisam ficar atrás de vidro.
Culturas como batata, cenoura, nabo, repolho e outras hortaliças resistentes podem ser produzidas em áreas abertas durante os meses favoráveis.
O problema é que esse sistema permanece muito vulnerável ao clima.
Em 2024, a Islândia teve sua menor colheita de batata desde 1993, com apenas 5.514 toneladas. A produção de cenoura caiu para 481 toneladas, uma redução de 53% em relação ao ano anterior.
O motivo foi um período ruim de frio, chuva e tempestades. Em algumas regiões, produtores perderam grande parte da safra.
Enquanto o campo sofria, a produção de tomates e pimentões dentro das estufas aumentou.
A diferença entre campo e estufa ficou evidente em 2024
O ano de 2024 funciona quase como um experimento natural para mostrar a vantagem do ambiente controlado.
As lavouras abertas enfrentaram frio, excesso de água e poucas condições favoráveis. A safra de grãos caiu para pouco mais de 5.100 toneladas, o menor volume desde 2018.
Batata e cenoura também registraram forte queda.
Dentro das estufas, entretanto, tomates e pimentões avançaram, e a produção de pepinos permaneceu próxima do nível recorde observado anteriormente.
Não significa que as estruturas sejam imunes ao clima. Significa que o produtor consegue controlar muito mais variáveis e reduzir a dependência direta da temperatura exterior.
Morangos mostram que frutas também começam a entrar nessa história
A transformação não está limitada às hortaliças.
A Islândia possui produtores comerciais de morangos, embora a escala continue pequena quando comparada à de tomates e pepinos. Pesquisas da Universidade Agrícola registram produção comercial desde pelo menos 1985.
O morango pode ser cultivado sob coberturas durante o verão ou dentro de estufas aquecidas. O grande problema volta a ser a luz durante o inverno.
Historicamente, a temporada islandesa de morangos ficou concentrada aproximadamente entre maio e outubro. Pesquisadores estudaram iluminação artificial justamente para descobrir se seria economicamente possível estender a produção para outros meses.
Essa é uma das áreas em que a agricultura islandesa ainda tem espaço para avançar.
Bananas existem na Islândia, mas não abastecem os supermercados
A imagem mais surpreendente é a de bananeiras crescendo dentro de estufas islandesas.
Elas realmente existem. A Universidade Agrícola já manteve cultivo de bananas em suas instalações de Reykir, e pesquisas locais mostram que tecnologias modernas permitem cultivar até espécies como banana, melão e videira em ambiente protegido.
Isso, porém, não significa que a Islândia tenha uma grande indústria comercial de bananas.
O custo de manter uma cultura tropical por longos períodos sob calor e iluminação artificial torna a produção muito mais difícil de competir com frutas importadas de regiões tropicais.
A importância desses cultivos está principalmente em mostrar até onde a tecnologia consegue empurrar os limites climáticos.
Produzir qualquer coisa não significa conseguir produzir barato
Essa é a grande fronteira da agricultura islandesa.
Tecnicamente, uma estufa aquecida e iluminada pode criar condições adequadas para uma enorme variedade de plantas. Economicamente, porém, cada cultura precisa pagar o custo da eletricidade, estrutura e mão de obra.
Uma alface cresce rápido. Um pepino pode produzir grande quantidade em pouco espaço. Um tomateiro bem manejado pode entregar frutos durante meses.
Uma bananeira precisa ocupar a estufa por muito mais tempo antes de entregar sua produção. É justamente aí que o custo começa a tornar algumas frutas menos competitivas.
Por isso, a revolução islandesa acontece primeiro nas culturas que respondem melhor à agricultura intensiva.
Luz artificial virou um dos principais custos da agricultura de inverno
Ter água quente barata não resolve toda a equação.
Durante os meses mais escuros, a iluminação suplementar pode ser indispensável. Experimentos com tomates na Islândia já utilizaram lâmpadas durante até 16 horas por dia para estudar a produção de inverno.
Essa energia tem custo, mesmo em um país com grande produção renovável.
O governo islandês reconhece a importância do problema. Políticas públicas recentes incluíram apoio ao custo de eletricidade para horticultura em estufas e também incentivos destinados ao cultivo ao ar livre.
A meta é aumentar a quantidade de alimentos produzidos dentro do país e reduzir parte de sua vulnerabilidade às importações.
Segurança alimentar virou parte da discussão
A geografia da Islândia ajuda a explicar essa preocupação.
É uma ilha no Atlântico Norte e depende de navios e aviões para receber muitos produtos agrícolas, fertilizantes, combustíveis, máquinas e outros insumos.
Uma análise da Universidade Agrícola já estimou que a horticultura nacional fornecia aproximadamente 43% dos vegetais disponíveis no país, embora essa participação mude conforme cultura e ano.
Pepino possui alto grau de abastecimento local. Tomate continua dividido entre produção interna e importação. Cebola e alho-poró aparecem entre produtos fortemente dependentes do exterior.
Ampliar a produção local, portanto, virou também uma questão de segurança alimentar.
O setor agrícola voltou a crescer em 2025
Depois das dificuldades enfrentadas pelas culturas abertas em 2024, as condições melhoraram no ano seguinte.
O Statistics Iceland estimou que o valor da produção agrícola total chegou a 100 bilhões de coroas islandesas em 2025, crescimento de 7% sobre 2024.
O valor da produção vegetal avançou aproximadamente 14%, aumento atribuído em grande parte às melhores condições climáticas durante o verão e o outono.
O número inclui muito mais que estufas, mas mostra que a produção vegetal está ganhando importância em uma economia rural historicamente muito ligada à pecuária.
A Islândia ainda não virou um país independente de importações
Os supermercados continuam recebendo grandes volumes de frutas e vegetais estrangeiros.
Só em tomates frescos, as importações de 2024 passaram de 1,5 mil toneladas. Produtos tropicais continuam dependendo praticamente por completo do exterior.
Mesmo assim, a transformação já aparece em áreas que pareciam improváveis poucas décadas atrás.
Pepinos são produzidos em grandes volumes localmente. Tomates crescem durante o inverno. Morangos aparecem em cultivos comerciais. Fazendas ampliam a temporada com túneis sem aquecimento.
E bananeiras, videiras e melões mostram experimentalmente que o limite biológico pode ser muito diferente do limite econômico.
Vulcões acabaram ajudando a redesenhar a agricultura do país
A Islândia não venceu o frio.
Em vez disso, aprendeu a contorná-lo.
Nas áreas de campo, agricultores selecionam culturas capazes de completar seu ciclo durante um verão curto. Túneis plásticos protegem outras espécies sem precisar de grandes sistemas de aquecimento.
Dentro das estufas mais avançadas, água quente retirada do subsolo mantém temperaturas adequadas enquanto lâmpadas substituem parte da luz que desaparece durante o inverno.
O resultado aparece nas estatísticas. Em 2024, enquanto frio e chuva derrubavam batata, cenoura e cereais, a produção protegida de tomate e pimentão conseguiu crescer.
É uma agricultura formada por caminhos diferentes: energia geotérmica onde é necessário calor, iluminação onde falta sol e cultivo protegido ou ao ar livre onde as plantas conseguem enfrentar o clima sem aquecimento.
O país ainda está longe de produzir todas as frutas e hortaliças que consome. Mas, próximo ao Ártico, a Islândia já conseguiu fazer algo que parecia contraditório: transformar parte de sua atividade vulcânica, do frio e das limitações climáticas em ferramentas para colocar alimentos frescos nas prateleiras durante uma parcela cada vez maior do ano.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

