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Prefeito americano trocou o gabinete pelas ruas, passou três dias anônimo entre pessoas sem teto e dormiu num abrigo de 1.062 vagas, onde presenciou drogas, violência e o medo de famílias com crianças, numa experiência que quase o fez chorar e o deixou disposto a arriscar a própria carreira para mudar o sistema
Escrito por Ana Alice
Publicado em 29/07/2026 às 17:25
Atualizado em 29/07/2026 às 17:26
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Um prefeito deixou o gabinete, viveu anonimamente nas ruas e dormiu em um grande abrigo antes de participar de uma decisão que ajudaria a mudar o atendimento à população sem teto em Salt Lake.
O enorme abrigo onde Ben McAdams passou uma noite sem revelar que comandava o condado já não recebe pessoas em situação de rua.
O The Road Home, que chegou a concentrar 1.062 vagas no centro de Salt Lake City, encerrou os atendimentos em novembro de 2019 e foi substituído por três centros menores, com 700 leitos somados e serviços divididos entre públicos diferentes.
A mudança representou o abandono daquele grande modelo centralizado, mas não encerrou o problema que levou McAdams às ruas.
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O levantamento oficial de 2025 encontrou 4.584 pessoas em situação de rua em Utah em uma única noite, número 18% superior ao registrado no ano anterior.
Prefeito passou três dias anônimo nas ruas
A experiência do então prefeito do Condado de Salt Lake ocorreu entre 24 e 26 de março de 2017, quando ele precisava tomar uma decisão que provocava protestos em diferentes cidades da região.
McAdams havia recebido a responsabilidade de indicar onde seria instalado um novo centro de atendimento a pessoas sem moradia.
Antes de escolher o local, concluiu que reuniões, relatórios e audiências públicas ainda não lhe permitiam compreender completamente o sistema que pretendia reformar.
Na sexta-feira, às 17h, deixou a carteira no gabinete e saiu a pé com um funcionário do condado.
Vestia jeans, tênis e um moletom com capuz, carregava uma troca de roupas e não levava dinheiro nem documento de identificação.
Sem contar quem era, passou três dias circulando pelo bairro de Rio Grande, área que concentrava o principal abrigo e parte dos serviços destinados à população sem teto de Salt Lake City.
Primeira noite foi passada ao relento
A primeira noite foi passada ao relento.
McAdams e o funcionário procuraram um ponto fora da área imediata do abrigo porque queriam entender por que algumas pessoas preferiam dormir na rua mesmo quando havia camas disponíveis.
A temperatura estava abaixo dos 40 graus Fahrenheit, faixa equivalente a menos de 5 graus Celsius, e começou a chover durante a manhã.
Naquele momento, o prefeito ainda observava a escolha de fora.
“Você se pergunta por que as pessoas fariam isso, sabendo que havia camas disponíveis no abrigo”, declarou posteriormente, em tradução livre.
A resposta começou a ganhar outra forma quando ele entrou no The Road Home para passar a segunda noite.
Abrigo The Road Home tinha 1.062 vagas
O local tinha capacidade anunciada para 1.062 pessoas e reunia famílias, mulheres e homens em diferentes espaços.
Segundo a direção, aproximadamente 600 homens poderiam estar alojados no setor masculino naquela noite, número que ajudava a dimensionar a dificuldade de controlar um ambiente tão grande.
McAdams afirmou ter sentido cheiro do que acreditava ser fumaça de drogas durante boa parte da madrugada.
Duas pessoas ouvidas pelo Deseret News também relataram que ele teria visto o homem da cama ao lado injetar uma substância no braço, episódio que o prefeito preferiu não detalhar publicamente.
Briga e alertas marcaram a noite no abrigo
A cerca de seis metros de sua cama, uma briga interrompeu a noite.
Conforme o relato de McAdams, um homem retirou outro do beliche e a cabeça dele atingiu o piso de concreto.
Outros hóspedes aconselharam o visitante anônimo a não tirar os sapatos, usar a própria bolsa como travesseiro e evitar o banheiro durante a madrugada.
A justificativa era o risco de furto e de outras situações de violência.
“Eu não me senti seguro. Era um ambiente bastante caótico”, afirmou.
Depois de dormir na rua sob frio e chuva, o prefeito disse ter compreendido por que alguém poderia escolher permanecer ao relento em vez de entrar naquele abrigo.
A declaração descrevia sua experiência limitada a uma noite e não permitia afirmar que todos os dias no The Road Home eram iguais.
Experiência não pretendia expor funcionários
O próprio McAdams fez questão de não apresentar a passagem como uma investigação secreta destinada a expor funcionários ou organizações sociais.
Segundo ele, profissionais do setor tentavam trabalhar em condições que classificou como quase impossíveis.
O objetivo era entender o sistema antes de tomar uma decisão pública, não produzir uma denúncia contra o abrigo.
A direção do The Road Home também apresentou sua versão.
Matt Minkevitch, então diretor-executivo da instituição, informou que havia equipes de segurança durante 24 horas, revistas para impedir a entrada de drogas e uma política de tolerância zero contra agressões.
Após consultar os registros de 25 de março, encontrou a anotação de uma briga atendida pelos seguranças, embora não fosse possível confirmar se o documento correspondia ao episódio visto por McAdams.
Direção reconheceu desafios dentro do abrigo
Minkevitch reconheceu que drogas já haviam entrado no prédio apesar das medidas de controle.
Para ele, administrar centenas de pessoas, incluindo usuários que enfrentavam dependência química, deixava uma margem para falhas mesmo com vigilância permanente.
O diretor afirmou que moradia acessível, tratamento de saúde mental e atendimento para dependência seriam necessários para reduzir a pressão sobre os abrigos emergenciais.
Ao permanecer anônimo, McAdams também ocupou uma cama que poderia ter sido usada por outra pessoa.
Por isso, após deixar o local, fez uma doação sem identificação para compensar os serviços utilizados.
Minkevitch disse compreender o interesse do prefeito em observar o sistema, mas não recomendaria a experiência a uma pessoa comum justamente porque as vagas eram disputadas.
Encontro com uma família chamou atenção do prefeito
Outro encontro chamou a atenção de McAdams durante os três dias.
Ele conheceu uma família que estava acompanhada de um menino de 9 anos com diagnóstico de autismo leve, a mesma idade de um de seus filhos.
A presença de crianças no ambiente o levou a questionar os efeitos de não saber onde dormir ou de onde viria a próxima refeição.
Meses depois da visita, o The Road Home informou ter retirado do abrigo do centro todas as famílias com crianças, encaminhando-as para moradias ou para uma unidade familiar em Midvale.
Experiência permaneceu escondida por quatro meses
A permanência nas ruas foi mantida em segredo por cerca de quatro meses.
Poucas pessoas do meio político sabiam do episódio, e McAdams dizia temer que sua atitude fosse interpretada como uma encenação feita sobre o sofrimento de terceiros.
A história só se tornou pública depois que o Deseret News recebeu a informação de uma fonte e procurou o prefeito.
“Eu estava preocupado para que não parecesse uma ação barata de publicidade diante do sofrimento humano”, afirmou.
Visita ocorreu antes de decisão sobre novo centro
A passagem pelo abrigo ocorreu poucos dias antes de McAdams recomendar South Salt Lake para receber o terceiro centro de recursos destinado a pessoas em situação de rua.
A escolha enfrentou resistência de moradores e autoridades locais, assim como havia ocorrido nas discussões envolvendo West Valley City e Draper.
Para o prefeito, o risco político não justificava manter o modelo existente sem alterações.
“Eu precisava ver em primeira mão para compreender a complexidade da recomendação que estavam me pedindo para fazer”, declarou.
McAdams sustentou que a experiência aumentou sua convicção de que o sistema precisava mudar.
Isso não significa, porém, que os três dias tenham sido a única causa das decisões posteriores.
A reforma já vinha sendo discutida havia mais de dois anos, envolvia governos estadual e municipais, organizações sociais, equipes técnicas, moradores e o Legislativo de Utah.
A passagem anônima serviu como uma experiência adicional dentro de um processo público muito maior.
Grande abrigo fechou em 2019
O antigo The Road Home fechou oficialmente para atendimentos em 21 de novembro de 2019.
Em seu lugar, passaram a funcionar um centro masculino de 300 vagas em South Salt Lake, o Gail Miller Resource Center, com 200 vagas, e o Geraldine E. King Resource Center, também com 200.
A proposta era reduzir a concentração de centenas de pessoas em um único prédio e aproximar os hóspedes de serviços destinados à obtenção de moradia, tratamento e reconstrução da autonomia.
Redução de vagas também recebeu críticas
A transição também recebeu críticas.
Antes do fechamento, autoridades, defensores da população sem teto e integrantes da comunidade questionavam se as 700 vagas seriam suficientes para substituir um abrigo com capacidade superior a mil pessoas.
Foram necessários espaços de aquecimento, colchões emergenciais, vales para motéis e esforços para ampliar o acesso a moradias durante os períodos de frio.
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Ana Alice
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Anos depois, os números oficiais mostram que a mudança de prédios não eliminou a falta de moradia em Utah.
O relatório estadual de 2025 registrou aumento entre crianças, veteranos e pessoas com mais de 64 anos, além da elevação geral de 18% na contagem realizada em uma única noite.
Os dados não permitem avaliar isoladamente o efeito da visita de McAdams nem atribuir a ela os resultados posteriores do sistema.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

