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Aos 14 anos, filha de costureira e pedreiro virou empregada doméstica para bancar o transporte até a escola, trabalhava de dia e estudava de madrugada, fez faxinas durante a faculdade e o mestrado e chegou a percorrer cerca de 130 km de moto até a UFRJ antes de conquistar o doutorado em Letras Clássicas
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 08/08/2026 às 19:33
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Trabalho precoce, falta de dinheiro, jornadas duplas e deslocamentos longos marcaram uma trajetória acadêmica construída desde a adolescência. Entre serviços domésticos, faxinas, aulas e madrugadas de estudo, uma jovem mineira avançou da escola pública à universidade até alcançar uma das etapas mais elevadas da formação.
A dificuldade para pagar as passagens de ônibus colocou Simone Marasco no mercado de trabalho quando tinha 14 anos, levando a adolescente, filha de uma costureira e de um pedreiro sem ensino fundamental completo, a conciliar serviço doméstico e escola em Juiz de Fora.
Durante o dia, Simone cuidava dos serviços de uma casa; depois do expediente, seguia para as aulas e deixava exercícios, trabalhos e revisões para a madrugada, rotina que, segundo reportagem do UOL produzida pela BBC News Brasil, acompanhou cerca de oito anos de trabalho doméstico e faxinas.
Empregada doméstica aos 14 anos para continuar estudando
Antes mesmo de conseguir uma ocupação fixa, ela já havia feito diferentes bicos para comprar materiais escolares e atender às próprias necessidades, trabalhando como babá, entregando salgados e chegando a atuar como servente de pedreiro ao lado do pai em algumas ocasiões.
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A mudança mais decisiva ocorreu após a conclusão do ensino fundamental, quando Simone deixou a escola da periferia para estudar em um colégio público da região central de Juiz de Fora e passou a enfrentar um custo de transporte que a família não conseguia absorver.
Sem dinheiro suficiente para as passagens, procurou um emprego que permitisse manter os estudos e, aos 14 anos, começou a trabalhar como doméstica em uma residência próxima de casa, cumprindo expediente pela manhã e à tarde antes de pegar o ônibus para a escola.
Como o tempo livre surgia apenas quando o restante da rotina havia terminado, as atividades escolares eram feitas durante a madrugada, hábito que voltaria a aparecer na universidade, quando Simone continuaria conciliando trabalho com leitura, preparação de disciplinas e poucas horas de descanso.
Madrugadas de estudo e preparação para o vestibular
Nos dois primeiros anos do ensino médio, ela permaneceu em uma escola pública do centro da cidade; no terceiro, decidiu estudar em uma instituição particular para reforçar a preparação para o vestibular, usando uma parcela significativa do salário de doméstica para pagar as mensalidades.
Dentro da própria família, o avanço também teve peso simbólico, porque Simone, embora fosse a irmã mais nova, tornou-se a primeira entre os irmãos a concluir o ensino médio, enquanto aproveitava intervalos entre trabalho e escola e espalhava anotações pelo quarto para memorizar conteúdos.
A aprovação veio para o curso de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora, com habilitação em português e latim, mas a entrada no ensino superior não eliminou as dificuldades financeiras, que continuaram exigindo trabalho durante a graduação e ajustes constantes na rotina acadêmica.
Na universidade, o interesse pela literatura latina e pela mitologia greco-romana cresceu ao mesmo tempo em que o trabalho doméstico seguia ocupando boa parte do dia, obrigando Simone a concentrar leituras e estudos nas madrugadas e a dormir, naquele período, entre quatro e seis horas.
Faxinas ajudaram a manter a graduação em Letras
No início da graduação, ela ainda trabalhava como empregada doméstica e relatou situações de tratamento desigual em uma das casas onde prestou serviço, inclusive com separação de utensílios e alimentos destinados à funcionária, experiência que antecedeu sua decisão de deixar o emprego fixo.
Ao passar a trabalhar como diarista, Simone ganhou alguma flexibilidade para ajustar os serviços à grade universitária, fazendo faxinas principalmente em casas de estudantes e servidores ligados à instituição e usando o dinheiro recebido para comprar materiais acadêmicos e pagar a alimentação.
Nem sempre a renda das diárias era suficiente para cobrir as despesas básicas, e em alguns períodos faltava dinheiro até para o almoço, situação em que uma professora, conhecedora das dificuldades enfrentadas pela estudante, ocasionalmente oferecia refeições e trabalhos de faxina.
A graduação foi concluída aos 21 anos, mas o diploma não encerrou imediatamente o trabalho como diarista, porque Simone ainda não havia conseguido emprego na área e decidiu participar de uma seleção para o mestrado em Estudos Literários da Universidade Federal de Minas Gerais.
Primeiro mestrado esbarrou em dificuldades financeiras
Aprovada na seleção, juntou dinheiro e se mudou para Belo Horizonte, onde iniciou o curso sem uma bolsa que cobrisse suas despesas e voltou a dividir o tempo entre pesquisa e faxinas, agora com uma clientela menor por conhecer poucas pessoas na nova cidade.
No meio desse período, o dinheiro que havia guardado foi levado durante um assalto, e a falta de recursos para permanecer na capital mineira fez Simone retornar a Juiz de Fora, encerrando aquela primeira tentativa de concluir o mestrado em literatura latina.
Uma nova etapa começou quando ela foi selecionada para atuar como professora substituta na própria Universidade Federal de Juiz de Fora, função que marcou o fim da dependência das faxinas e elevou sua renda para quatro vezes o valor obtido anteriormente com serviços de limpeza.
Parte do primeiro pagamento recebido como professora foi usada para reformar o telhado da casa dos pais, que apresentava infiltrações em períodos de chuva, gesto associado por Simone a uma nova fase de independência financeira depois de anos trabalhando desde a adolescência.
Cerca de 130 quilômetros de moto até a UFRJ
Mais tarde, quando o companheiro foi aprovado em concurso público para lecionar em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, Simone decidiu acompanhá-lo somente depois de conseguir uma vaga e uma bolsa em um mestrado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Aprovada na seleção da UFRJ e beneficiada pela bolsa, mudou-se para Volta Redonda e passou a enfrentar outra rotina exigente, percorrendo quase diariamente cerca de 130 quilômetros de motocicleta entre a cidade onde vivia e o Rio de Janeiro para acompanhar as atividades acadêmicas.
Dessa vez, o apoio financeiro permitiu que ela concentrasse a renda na permanência acadêmica sem retornar às faxinas, e Simone concluiu o mestrado em Letras Clássicas na UFRJ antes de ingressar no doutorado na mesma área, também com suporte para continuar os estudos.
A etapa mais avançada da formação foi concluída depois de uma trajetória iniciada na adolescência entre trabalho doméstico e escola, passando pela graduação em Letras, por duas experiências diferentes de mestrado e por anos em que serviços de limpeza financiaram transporte, alimentação e materiais.
Doutorado em Letras Clássicas depois de anos conciliando trabalho e estudo
Ao relembrar o percurso, Simone atribuiu importância direta às bolsas recebidas na pós-graduação e às políticas públicas de acesso e permanência na educação, afirmando que não via sua história como uma demonstração simples de meritocracia diante do peso dessas oportunidades em sua formação.
Quando seu relato ganhou repercussão nacional, ela já havia terminado o doutorado e buscava oportunidades para trabalhar como professora de latim, enquanto também ajudava na administração de uma loja mantida pelo marido e um sócio em Volta Redonda e cuidava da filha pequena.
O que mais chama sua atenção nessa trajetória de estudo e trabalho: ter começado a trabalhar aos 14 anos para pagar o transporte, atravessar madrugadas conciliando faxinas e leituras ou percorrer cerca de 130 quilômetros de moto para continuar a formação acadêmica?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

