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Aos 23 anos, mulher acorda sozinha após furacão destruir o veleiro e levar seu noivo ao mar, fica a cerca de 2.400 km da terra mais próxima e sobrevive 41 dias no Pacífico usando vela improvisada, sextante, estrelas e corrente oceânica até alcançar o Havaí
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 08/09/2026 às 19:03
Atualizado em 08/09/2026 às 19:04
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Tami Oldham Ashcraft tinha 23 anos quando um furacão atingiu o Hazana, em 1983. Sozinha e ferida, racionou alimentos, improvisou um mastro e calculou sua posição no Pacífico. Após 41 dias, chegou ao Havaí, onde um navio japonês ajudou a concluir o resgate. A experiência depois virou livro e filme.
Tami Oldham Ashcraft sobreviveu durante 41 dias no Oceano Pacífico depois que um furacão deixou o veleiro Hazana sem mastros e com motor, rádio e sistemas de navegação inutilizados. Aos 23 anos, ela precisou conduzir a embarcação avariada sozinha, com um grave ferimento na cabeça, após perceber que o noivo havia desaparecido no mar.
Segundo reportagem de Lou Bodenhemier publicada pelo ExplorersWeb em 20 de maio de 2025, a história aconteceu em 1983, durante uma travessia do Taiti para San Diego. Tami e Richard Sharpe haviam sido contratados por um casal para levar o iate até a Califórnia, mas encontraram um furacão quando já estavam em pleno oceano.
Tami e Richard navegavam em um veleiro de 13 metros
Tami era de San Diego e havia crescido em contato com barcos. Ela conheceu Richard nas docas locais e, posteriormente, os dois navegaram juntos até o Taiti, onde receberam a proposta para transportar o Hazana.
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Richard tinha 35 anos, e ambos eram velejadores experientes. Recém-noivos, aceitaram conduzir a embarcação de 13 metros até a costa americana, numa viagem que transcorreu sem grandes incidentes durante as duas primeiras semanas.
Alerta pelo rádio levou o casal a tentar escapar por três dias
O aviso chegou quando o Hazana estava um pouco ao norte da linha do Equador. Pelo rádio, o casal soube que um furacão avançava para oeste e ganhava força diariamente, levando os dois a tentar se afastar de sua trajetória.
Tami e Richard passaram três dias tentando escapar, mas a tempestade os alcançou. Na manhã de 9 de outubro, com o vento aumentando, fecharam as escotilhas, retiraram objetos do convés, recolheram as velas e se prenderam aos equipamentos de segurança.
Ventos de 190 km/h e ondas de 15 metros atingiram o Hazana
Os ventos chegaram a 190 km/h, acima dos 118 km/h que correspondem à velocidade mínima de um furacão. Ondas de 15 metros quebravam sobre o veleiro, enquanto outras ainda maiores vinham de diferentes direções.
Richard permaneceu no cockpit, preso a uma linha de segurança, tentando manter a popa voltada para as ondas para evitar que a embarcação virasse. Ele tranquilizou Tami e pediu que descesse e se amarrasse; pouco depois, ela ouviu o noivo exclamar “Meu Deus!” antes de uma onda atingir o barco, que capotou várias vezes.
Tami acordou três horas depois e não encontrou o noivo
Tami perdeu a consciência durante o impacto e só acordou três horas depois, machucada, febril e com perda significativa de sangue. Ao perceber pelo movimento da embarcação que a tempestade havia diminuído, rastejou até o convés e constatou que Richard não estava mais a bordo.
O cabo de segurança continuava preso, mas a força do furacão havia arrancado o anel em D do cinto que o segurava. Em entrevista ao Los Angeles Times, Tami descreveu a descoberta do desaparecimento do noivo como o pior momento de toda a experiência.
Casco sem vazamentos permitiu começar a recuperação do barco
O convés estava rompido, os dois mastros haviam desaparecido e a cabine inundada comprometera os equipamentos eletrônicos. Em choque, com um traumatismo craniano e acreditando que o Hazana afundaria, Tami se encolheu em posição fetal dentro de um pequeno bote salva-vidas amarelo.
Na manhã seguinte, ela constatou que o veleiro continuava flutuando e começou a bombear a água para fora, descobrindo que o casco não vazava. Mais tarde, explicou ao Los Angeles Times como encarou a necessidade de sobreviver: “Richard morreu para que eu pudesse viver”.
Vela de tempestade foi instalada em um mastro improvisado
Tami encontrou uma vela de tempestade, pequena e triangular, destinada a auxiliar a condução em condições extremas. Ela a içou usando um mastro improvisado com metade de uma peça quebrada, recuperando alguma capacidade de conduzir o Hazana.
A possibilidade de navegar não resolvia, porém, o problema da localização. Tami estava a cerca de 2.400 quilômetros da terra mais próxima e precisava encontrar uma rota para o Havaí sem os sistemas modernos de navegação que haviam sido destruídos.
Sextante e relógio ajudaram a calcular a posição no Pacífico
Tami ainda tinha um sextante, instrumento de navegação astronômica usado desde o século XVIII para determinar a latitude a partir dos ângulos entre o horizonte e astros como o Sol, a Lua e as estrelas. Como calcular a longitude era mais difícil, sua intenção inicial era seguir pela latitude e tentar identificar o momento certo de mudar de direção.
Uma semana depois, ao terminar de retirar a água do porão, ela descobriu que seu relógio continuava funcionando. Como ele marcava o horário de Greenwich, uma longitude conhecida, Tami conseguiu usar a diferença em relação à hora local para calcular também sua longitude.
Corrente Equatorial Norte levou o veleiro a até seis nós
Tami conseguiu determinar sua posição e alcançar a Corrente Equatorial Norte. A corrente a conduziu ao longo do paralelo 19 a até seis nós, velocidade superior aos dois ou três nós que o Hazana danificado conseguia atingir por conta própria.
A rota dependia de seguir pelo paralelo e fazer uma mudança de direção no ponto correto. Tami temia errar o cálculo da longitude, passar pelo Havaí sem alcançá-lo e continuar perdida na extensão do Pacífico.
Alimentos enlatados foram racionados, e o diário registrou cada dia
Tami racionou os alimentos enlatados disponíveis enquanto dividia o tempo entre navegar, conduzir o veleiro e bombear água. As tarefas práticas não afastavam o sofrimento pela perda de Richard, que continuava presente durante o isolamento.
O diário de bordo passou a ser preenchido todos os dias, tanto para ajudá-la a manter o equilíbrio quanto para registrar o que havia acontecido caso não sobrevivesse. Ela explicou posteriormente que não queria que sua família ficasse sem saber qual tinha sido seu destino.
Tami relatou sentir Richard por perto durante os 41 dias
Tami contou à Royal National Lifeboat Institution que sentia a presença do noivo durante a travessia. Ela conversava frequentemente com Richard, sentada ao lado da corda que o havia prendido ao barco e que mantinha por perto; segundo seu relato, essa presença respondia e a encorajava a continuar.
A experiência foi relacionada ao chamado “Fator do Terceiro Homem”, sensação de uma voz ou presença invisível em situações extremas, interpretada por psicólogos como um possível mecanismo subconsciente de defesa. Ernest Shackleton descreveu algo semelhante no livro South, ao atravessar a Ilha Geórgia do Sul com Tom Crean e Frank Worsley em busca de resgate: os três sentiram a presença de um quarto companheiro, episódio que inspirou um trecho de A Terra Devastada, de T.S. Eliot, associado ao nome do fenômeno.
No 39º dia, sinalizadores não chamaram a atenção de avião e navios
Tami avistou o que acreditava ser terra no horizonte depois de 39 dias. Ela não conseguia distinguir com segurança se era a região de Hilo ou apenas nuvens, e a cobertura aumentou antes que pudesse confirmar o que via.
Um pequeno avião militar passou em baixa altitude, mas não a percebeu; dois navios distantes também não reagiram aos sinalizadores. O desespero a fez voltar a cogitar o suicídio, mas, segundo contou, a voz que associava a Richard a incentivou a retornar ao convés e continuar procurando, porque estava perto de chegar.
A três quilômetros do porto, Tami evitou uma entrada noturna
Tami voltou ao convés e encontrou o horizonte mais aberto, conseguindo finalmente confirmar a presença de terra. Para comemorar, abriu a última garrafa de cerveja que restava a bordo.
Dois dias depois, pouco após a meia-noite, o Hazana estava a aproximadamente três quilômetros do porto. Como entrar à noite com o veleiro tão danificado seria arriscado, ela permaneceu navegando de um lado para o outro ao longo da costa.
Navio japonês rebocou o Hazana ao fim da travessia
Ao amanhecer, um sinalizador disparado por Tami foi percebido pelo Hokusei Maru, navio científico japonês que realizava pesquisas sobre lulas. A equipe prendeu o Hazana à embarcação e o rebocou até o quebra-mar do porto, onde integrantes da Guarda Costeira aguardavam para levá-la à terra firme.
A mãe de Tami, Zonna Roberts, saiu de San Diego para Hilo assim que soube que a filha estava em segurança. Depois dos 41 dias no mar, Tami disse ao Hawaii Tribune-Herald que, agora que havia sobrevivido, estava voltando para as pessoas.
Recuperação levou anos, história virou livro e Tami voltou a velejar
Tami continuou enfrentando o luto depois do resgate: procurava Richard entre as pessoas e tinha pesadelos recorrentes sobre estar perdida no mar e perder o noivo. O traumatismo craniano prejudicou sua capacidade de leitura, e foram necessários anos de recuperação até que começasse a escrever a experiência.
O relato foi publicado em 2002 com o título Red Sky in Mourning e posteriormente adaptado para o cinema. Tami Oldham Ashcraft também voltou a velejar e passou a usar um pingente em formato de sextante, o instrumento que havia utilizado para encontrar seu caminho até o Havaí.
Na sua opinião, o que mais chama atenção na sobrevivência de Tami: os reparos improvisados, o conhecimento de navegação ou a persistência durante os 41 dias? Deixe sua opinião nos comentários.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

