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Fabricante de caixões vê meteorito de 1,8 kg atravessar o telhado de casa, vende a pedra por cerca de R$ 58 mil e descobre depois que fragmentos semelhantes eram anunciados por valores muito maiores
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 08/09/2026 às 17:43
Atualizado em 08/09/2026 às 17:44
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Fabricante de caixões vê meteorito atravessar o telhado, vende 1,8 kg por valor equivalente hoje a cerca de R$ 58 mil e vira caso mundial.
Josua Hutagalung estava trabalhando na fabricação de um caixão em sua casa, no norte da ilha de Sumatra, na Indonésia, quando um objeto vindo do espaço atravessou o telhado em 1º de agosto de 2020 e terminou enterrado no solo. Segundo o The Jakarta Post, o indonésio disse posteriormente ter vendido 1,8 quilo do meteorito por 200 milhões de rúpias indonésias, quantia que, pela cotação atual consultada para esta reportagem, corresponde a aproximadamente R$ 58,2 mil.
A história ganhou uma dimensão muito maior meses depois, quando pequenos fragmentos ligados à mesma queda apareceram anunciados na internet por centenas de dólares por grama e a multiplicação direta desse preço pelo peso da pedra gerou manchetes dizendo que o meteorito poderia valer US$ 1,8 milhão.
Meteorito atravessou o telhado enquanto Josua fabricava um caixão
Era a tarde de sábado, 1º de agosto de 2020, em Satahi Nauli, uma aldeia do distrito de Kolang, na regência de Tapanuli Central, em Sumatra do Norte.
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Paulo Nogueira
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Josua trabalhava em casa quando moradores da região ouviram fortes estrondos. Pouco depois, uma pedra atravessou o telhado da residência e atingiu o chão.
O impacto foi suficiente para abrir um buraco na cobertura e fazer o objeto penetrar aproximadamente 15 centímetros no solo.
Josua relatou que, ao retirar a pedra, percebeu que ela ainda estava quente. Naquele momento, passou a suspeitar de que o objeto não era uma rocha comum lançada contra a casa, mas algo que havia caído diretamente do céu.
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A própria Meteoritical Society registra oficialmente a queda em 1º de agosto de 2020. O meteorito recebeu o nome de Kolang, referência ao distrito onde os fragmentos foram recuperados, e a massa total oficialmente registrada para a queda é de 2,55 quilos.
Pedra encontrada na casa pesava cerca de 2,2 quilos
Josua afirmou que a principal massa que atingiu sua residência inicialmente pesava aproximadamente 2,2 quilos. Parte da pedra acabou se fragmentando ou sendo separada antes da negociação.
Segundo seu relato à imprensa indonésia, ele vendeu cerca de 1.800 gramas e distribuiu parte do restante entre familiares.
Disse ter guardado para si um pequeno fragmento de aproximadamente cinco gramas como recordação. Outras massas também foram encontradas nas proximidades depois da queda, o que explica a massa total de 2,55 quilos registrada oficialmente para o meteorito Kolang.
A diferença é importante porque a história acabaria sendo transformada em uma comparação de preço baseada simplesmente na multiplicação do valor pedido por pequenos fragmentos pelo peso de toda a massa que Josua possuía. Especialistas explicariam posteriormente que o mercado de meteoritos não funciona dessa maneira.
Oferta surgiu apenas algumas semanas depois da queda
A descoberta rapidamente chamou atenção depois que Josua publicou imagens da pedra nas redes sociais.
Ele relatou que recebeu propostas e consultas de pessoas interessadas no objeto, enquanto a notícia começava a circular para além de sua região.
Josua afirmou que uma oferta de 1 bilhão de rúpias indonésias chegou a aparecer dois dias após a queda, mas disse não ter considerado a proposta séria. Cerca de duas semanas depois, Jared Collins, um norte-americano residente em Bali e interessado em meteoritos, viajou até Sumatra depois de tomar conhecimento do caso.
A negociação foi concluída em 17 de agosto de 2020. Josua declarou inicialmente que recebeu 200 milhões de rúpias pela parte negociada do meteorito e outros 14 milhões de rúpias destinados ao reparo do telhado atingido pela pedra. Pela taxa de câmbio atual usada nesta reportagem, somente os 200 milhões de rúpias equivalem a aproximadamente R$ 58,2 mil.
Fragmentos anunciados na internet fizeram surgir uma fortuna de US$ 1,8 milhão
A parte mais controversa da história começou meses depois. Pequenos fragmentos relacionados à queda apareceram em anúncios de comércio eletrônico, e alguns deles carregavam preços por grama extremamente altos quando comparados ao valor atribuído à massa maior.
A BBC News Indonesia documentou dois exemplos. Um anúncio pedia US$ 285 por somente 0,3 grama, enquanto outro apresentava 33,68 gramas por US$ 29.120.
A proporção ficava próxima de US$ 860 por grama. Quando esse número foi simplesmente multiplicado pelos aproximadamente 1.800 gramas associados à negociação de Josua, o resultado se aproximou de US$ 1,5 milhão a US$ 1,8 milhão, dependendo do preço usado como referência.
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Foi daí que surgiram manchetes internacionais descrevendo Josua como alguém que poderia ter recebido uma fortuna equivalente a milhões de dólares.
O problema é que os números utilizados eram preços pedidos por pequenas amostras, e não registros de uma venda de 1,8 quilo pelo mesmo valor unitário.
Especialista explicou por que não era possível multiplicar o preço por grama
Laurence Garvie, pesquisador da Arizona State University que examinou material relacionado ao meteorito, explicou à BBC que a lógica usada para chegar à cifra milionária era inadequada.
Fragmentos muito pequenos podem alcançar valores proporcionalmente elevados entre colecionadores porque permitem que várias pessoas obtenham amostras de um mesmo meteorito.
Uma massa de quase dois quilos não necessariamente mantém o mesmo preço por grama. Na prática, o valor unitário tende a cair à medida que o tamanho da peça aumenta, porque o universo de compradores capazes ou dispostos a adquirir uma grande massa é muito menor.
Garvie também demonstrou ceticismo quanto à possibilidade de os próprios pequenos fragmentos serem vendidos pelos preços máximos pedidos nos anúncios.
Meteorito recebeu oficialmente o nome de Kolang
Independentemente da disputa comercial, a origem espacial da pedra foi confirmada. O Meteoritical Bulletin Database, mantido pela Meteoritical Society e hospedado pelo Lunar and Planetary Institute, registra Kolang como um meteorito oficial e classifica o evento como uma queda observada e confirmada.
A classificação recomendada é CM1/2, pertencente ao grupo dos condritos carbonáceos. A base oficial registra massa total de 2,55 quilos e indica que o nome foi aprovado em setembro de 2020.
O registro científico transforma o objeto que rompeu o telhado de uma casa indonésia em parte documentada do inventário mundial de meteoritos.
A classificação CM é particularmente importante para pesquisadores porque condritos carbonáceos preservam materiais primitivos relacionados às fases iniciais do Sistema Solar.
A BBC ouviu pesquisadores que destacaram justamente o valor científico desse tipo de material como uma espécie de registro físico de processos anteriores à formação dos planetas.
Dinheiro da negociação foi usado pela família e em doações
Josua contou em 2020 que o dinheiro que atribuía à negociação já havia sido utilizado quando a história sobre a suposta fortuna mundial ganhou força. Segundo seus relatos à imprensa, recursos foram destinados à família, a órfãos, à igreja e à recuperação dos túmulos de seus pais.
Ele também rejeitou a narrativa inicial de que havia se tornado multimilionário da noite para o dia. Quando reportagens começaram a associar o meteorito a valores na casa de dezenas de bilhões de rúpias, Josua manifestou surpresa e chegou inicialmente a dizer que se sentiria enganado caso aquela realmente fosse a cotação de sua pedra.
A investigação posterior da BBC colocou a comparação em contexto e concluiu que não havia base para tratar o meteorito inteiro como uma peça negociável pelo mesmo preço unitário pedido por minúsculos fragmentos.
A manifestação ligada a Collins também afirmou que a transação havia sido aceita pelas partes e contestou a narrativa de que Josua tivesse sido enganado.
Pedra que caiu do céu virou um caso mundial sobre o preço de meteoritos
O episódio começou de maneira muito mais concreta do que as cifras que mais tarde dominariam as manchetes: um fabricante de caixões trabalhava em casa quando uma pedra vinda do espaço atravessou seu telhado, entrou cerca de 15 centímetros no solo e deixou diante dele um objeto que seria oficialmente registrado pela comunidade científica internacional.
Josua afirmou ter negociado 1,8 quilo por 200 milhões de rúpias, quantia equivalente hoje a aproximadamente R$ 58 mil.
Depois, pequenos fragmentos apareceram anunciados por centenas de dólares por grama e transformaram uma simples negociação em especulações sobre uma pedra de US$ 1,8 milhão.
O que permaneceu comprovado foi menos espetacular financeiramente, mas mais raro fisicamente: a queda de 1º de agosto de 2020 realmente aconteceu, o material realmente atravessou uma residência, o meteorito foi oficialmente batizado de Kolang e sua classificação CM1/2 permanece registrada no banco internacional da Meteoritical Society.
A fortuna multimilionária nunca foi uma venda comprovada, mas a pedra que abriu um buraco no telhado entrou definitivamente no registro científico dos meteoritos recuperados na Terra.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

