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Homem entra em bunker de concreto enquanto tanque dispara contra a estrutura, sai sem ferimentos e ajuda a validar projeto que se espalharia pela Albânia
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 03/09/2026 às 19:24
Atualizado em 03/09/2026 às 19:25
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A Albânia construiu 173.371 estruturas do tipo bunker durante o regime de Enver Hoxha, espalhando casamatas por praias, montanhas, cidades e áreas rurais.
Praias, terrenos agrícolas, entradas de cidades, montanhas e até cemitérios da Albânia passaram a receber uma mesma estrutura durante o regime de Enver Hoxha: uma pequena cúpula de concreto criada para funcionar como bunker defensivo. Documentos do antigo governo divulgados em 2014 indicam que 173.371 casamatas haviam sido construídas até 1983, resultado de uma estratégia que pretendia transformar praticamente todo o território em uma linha de resistência contra uma invasão estrangeira.
A guerra que justificava tamanho esforço jamais chegou. Hoxha morreu em abril de 1985, quando o país tinha pouco menos de três milhões de habitantes, deixando para trás uma paisagem tomada por estruturas militares que continuariam presentes décadas depois do fim do regime. Muitas foram destruídas ou enterradas; outras acabaram transformadas em depósitos, currais, quiosques e até acomodações para turistas.
Número de 750 mil bunkers se espalhou, mas documentos apontam outra escala
Uma das curiosidades mais repetidas sobre a Albânia afirma que o país teria construído 700 mil ou até 750 mil bunkers.
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Os registros do regime liberados em 2014 indicam 173.371 estruturas concluídas até 1983. A diferença altera inclusive um cálculo frequentemente associado à história: a ideia de que existiriam aproximadamente 24 casamatas para cada quilômetro quadrado do país depende da estimativa muito maior.
Considerando a área da Albânia, de 28.748 quilômetros quadrados, a documentação disponível leva a uma densidade próxima de seis estruturas por quilômetro quadrado. O número continua impressionante, mas é muito inferior ao resultado produzido pela cifra de 750 mil.
O que não muda é a escala territorial do programa. Mesmo com a contagem documental menor, centenas de milhares de toneladas de concreto e aço foram distribuídas por um país relativamente pequeno durante poucos anos.
Pequeno bunker tinha espaço para somente uma ou duas pessoas
O modelo encontrado com maior frequência era chamado QZ, abreviação de Qender Zjarri, expressão traduzida como posição de tiro. Externamente, sua característica mais marcante era a cúpula arredondada emergindo parcialmente do solo.
O espaço interno era reduzido. O bunker comportava uma ou duas pessoas e possuía uma abertura estreita voltada para o exterior, por onde uma arma poderia ser utilizada.
A proteção vinha principalmente da quantidade de concreto. As paredes podiam variar aproximadamente entre 60 centímetros e 1,1 metro de espessura, dimensionadas para oferecer resistência inclusive a impactos diretos de artilharia.
Essa estrutura compacta era apenas uma parte do sistema. Existia também uma versão maior, denominada PZ, utilizada como ponto de comando e conectada às posições menores por trincheiras.
Formato arredondado nasceu da tentativa de fazer projéteis desviarem
O nome mais associado ao desenvolvimento dessas estruturas é o do engenheiro militar Josif Zagali. Veterano dos partisans durante a Segunda Guerra Mundial, ele posteriormente estudou na União Soviética e chegou ao posto de coronel.
A lógica da cúpula surgiu da observação de que uma superfície curva poderia ajudar a desviar parte da energia de determinados impactos, reduzindo a possibilidade de uma perfuração frontal. A geometria, portanto, não foi escolhida apenas por aparência.
Um episódio posteriormente associado à biografia de Zagali afirma que Enver Hoxha teria ordenado ao engenheiro que permanecesse dentro de um protótipo enquanto um tanque disparava contra a estrutura. Segundo essa versão, Zagali saiu sem ferimentos e o projeto avançou.
Bunkers podiam ser produzidos em série e montados em diferentes regiões
A repetição das mesmas formas em locais muito distantes também tinha explicação industrial. Os principais modelos eram pré-moldados em fábrica antes de serem transportados para o ponto de instalação.
Isso permitia levar partes padronizadas até regiões rurais, áreas costeiras e passagens de montanha sem construir cada casamata integralmente no próprio terreno.
O resultado ainda pode ser observado na paisagem albanesa. A mesma cúpula aparece em cenários totalmente diferentes porque fazia parte de um conceito nacional de defesa, e não de fortificações isoladas construídas apenas em posições estratégicas.
Um bunker poderia estar próximo a uma praia, enquanto outro aparecia ao lado de uma estrada ou em terreno agrícola. Até áreas residenciais e cemitérios receberam estruturas.
Hoxha queria que uma invasão encontrasse resistência em todo o país
A distribuição obedecia a uma ideia conhecida como defesa em profundidade. Em vez de confiar apenas em uma grande barreira na fronteira, o governo pretendia espalhar posições capazes de sustentar resistência sucessiva mesmo se forças inimigas avançassem território adentro.
A costa recebeu fortificações, assim como acessos urbanos. Passagens montanhosas formavam outra camada do sistema, enquanto pequenas posições apareciam isoladamente em pontos do interior.
Essa estratégia estava ligada à situação internacional peculiar criada pelo próprio regime de Hoxha. A Albânia foi rompendo sucessivamente relações com antigos parceiros até terminar praticamente sem aliados capazes de socorrê-la em caso de conflito.
O país se afastou da Iugoslávia em 1948. Mais tarde, rompeu com a União Soviética e, anos depois, também encerrou sua aproximação com a China.
Saída do Pacto de Varsóvia aprofundou isolamento da Albânia
Outro momento importante aconteceu em 1968, depois da invasão da Tchecoslováquia. A Albânia abandonou o Pacto de Varsóvia, afastando-se ainda mais do bloco militar liderado por Moscou.
A ruptura com a China ocorreria em 1978, eliminando outra importante relação externa. O regime passou a trabalhar com a possibilidade de enfrentar sozinho uma invasão.
Foi nesse ambiente que a doutrina de resistência popular ganhou força. A ideia previa que todo o território contribuísse para a defesa e que uma eventual força estrangeira enfrentasse posições fortificadas mesmo depois de ultrapassar as fronteiras.
O bunker tornou-se, portanto, a manifestação física de uma política baseada na expectativa permanente de ataque.
Construção consumiu recursos de um dos países mais pobres da Europa
A escala se torna ainda mais significativa quando se observa o custo material do programa. Cada pequena casamata demandava grandes quantidades de concreto e aço para uma estrutura que oferecia pouquíssimo espaço interno.
O período de maior intensidade ocorreu entre 1975 e 1983. Estimativas de historiadores indicam que, nos anos de pico, o esforço destinado às fortificações pode ter absorvido perto de um quinto da produção econômica do país.
Isso ocorreu enquanto a Albânia permanecia entre os países mais pobres da Europa. O material utilizado para construir milhares de posições defensivas deixou de ser empregado em outras infraestruturas civis.
A dimensão pode ser compreendida imaginando as 173.371 estruturas de concreto armado como uma enorme quantidade de matéria-prima que poderia ter sido direcionada a moradias, escolas, estradas ou outras obras.
Governo também construiu abrigo subterrâneo de cinco andares para a liderança
Enquanto pequenas cúpulas surgiam na superfície, outra estrutura era escavada secretamente nas proximidades de Tirana.
O complexo destinado a Enver Hoxha e à cúpula política possuía cinco andares e 106 cômodos. Construído durante a década de 1970, deveria oferecer proteção à liderança em uma situação de guerra.
Décadas depois, o local ganhou uma função completamente diferente. Aberto ao público em 2014, tornou-se o Bunk’Art, espaço dedicado a museu e galeria.
Um segundo abrigo na região central da capital foi aberto dois anos mais tarde. Hoxha, entretanto, morreu sem precisar utilizar os complexos para a finalidade militar que motivou sua construção.
Engenheiro que ajudou a criar sistema acabou preso pelo próprio regime
A trajetória de Josif Zagali tomou uma direção inesperada apesar de sua participação no projeto defensivo.
Em 1974, ele foi atingido por um dos expurgos do regime. Acusado de sabotagem e de atuar como agente estrangeiro, o engenheiro passou oito anos na prisão.
Segundo relatos sobre o período, a punição também afetou sua família, que teria enfrentado isolamento social enquanto ele estava encarcerado.
Depois da queda do regime, sua história voltou à esfera pública. Em 1996, o filme Kolonel Bunker levou elementos de sua trajetória para o cinema, e o próprio Zagali participou da produção como consultor.
Retirar um bunker pode custar mais do que simplesmente deixá-lo no terreno
O fim do regime não significou o desaparecimento imediato das casamatas. A mesma espessura que deveria protegê-las durante uma guerra tornou sua demolição cara e complicada.
Remover uma cúpula exige equipamentos pesados, especialmente quando a estrutura está parcialmente enterrada. Em propriedades agrícolas, o custo pode tornar mais simples manter o obstáculo no lugar do que eliminá-lo completamente.
Não existe, uma contagem oficial atualizada de quantos bunkers permanecem de pé. Parte foi demolida, outra quantidade acabou soterrada e muitas estruturas continuam espalhadas pelo território.
Algumas ganharam novos usos em vez de desaparecer. Antigas posições militares passaram a funcionar como depósitos ou abrigos para animais, enquanto determinadas estruturas próximas à costa foram reaproveitadas comercialmente.
Há bunkers que viraram quiosques e até quartos para turistas
A mudança de função produziu um contraste que dificilmente seria imaginado durante o governo de Hoxha.
Estruturas projetadas para resistir a artilharia passaram a servir como quiosques de praia, depósitos e pequenos espaços adaptados para visitantes. Em alguns pontos da costa, antigas casamatas chegaram a ser transformadas em quartos destinados a turistas.
Outras permanecem simplesmente abandonadas, incorporadas ao terreno e cobertas parcialmente pela vegetação. São vestígios físicos de uma estratégia militar encerrada há décadas.
O reaproveitamento mostra como a Albânia precisou aprender a conviver com uma infraestrutura concebida para durar. Destruir tudo exigiria dinheiro e esforço consideráveis; deixar as estruturas no lugar criou possibilidades completamente diferentes das imaginadas por seus projetistas.
Fonte
Sociedade Militar
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

