8 min de leitura
Tartaruga que passou 41 anos em cativeiro reaprende a caçar aos 60 anos, volta ao oceano e percorre quase 4 mil km seguindo sozinha pela costa do Brasil
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 01/09/2026 às 19:16
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Depois de décadas vivendo em um tanque longe do mar, Jorge precisou se adaptar novamente à água salgada, recuperar comportamentos selvagens e provar aos pesquisadores que ainda conseguia sobreviver sozinho
Durante mais de quatro décadas, Jorge viveu longe do oceano, dentro de aquários na Argentina. Capturado acidentalmente ainda nos anos 1980, o macho da espécie tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) passou praticamente toda a vida adulta sob cuidados humanos, até que pesquisadores decidiram tentar algo que parecia extremamente difícil: prepará-lo para voltar à natureza aos cerca de 60 anos de idade.
O processo levou anos. Jorge precisou voltar a se acostumar à água salgada, ganhar resistência física, reconhecer outros animais e, principalmente, reaprender a encontrar e capturar o próprio alimento. Em 11 de abril de 2025, finalmente voltou ao Atlântico.
O que aconteceu depois surpreendeu até quem acompanhava sua recuperação. Equipado com um transmissor por satélite, Jorge começou a nadar para o norte, entrou em águas brasileiras e, durante 109 dias de monitoramento, percorreu aproximadamente 3,5 mil a 4 mil quilômetros pela costa sul-americana.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Recomendado para você
Economia
Portos do Arco Norte já escoam 46,12% do milho exportado pelo Brasil, enquanto embarques do cereal crescem 10,53% em 2026
O Arco Norte respondeu por 46,12% do milho exportado pelo Brasil entre janeiro e julho de 2026, enquanto os embarques nacionais do cereal cresceram 10,53% e chegaram a 9,8 milhões…
Paulo Nogueira
0
A história começou em 1984, quando Jorge ficou preso em uma rede de pesca
Foto: Municipalidad de la Ciudad de Mendoza
Jorge foi encontrado em 1984, na região de Bahía Blanca, na província de Buenos Aires. Ainda jovem, acabou preso acidentalmente em redes utilizadas por pescadores e chegou a apresentar problemas relacionados a ferimentos e às baixas temperaturas.
Na época, programas estruturados para recuperar e devolver tartarugas marinhas ao oceano eram muito menos desenvolvidos do que atualmente. Por isso, após ser resgatado e identificado como uma tartaruga-cabeçuda, Jorge acabou sendo enviado para o Acuario Municipal de Mendoza.
Ele chegou ao local em 4 de março de 1984, transportado de avião dentro de uma caixa de madeira especialmente preparada. Pesava aproximadamente 40 quilos.
O que inicialmente poderia parecer uma solução temporária se transformou em uma permanência de décadas.
Quase quatro décadas dentro de um tanque de aproximadamente 20 mil litros
Mendoza fica a centenas de quilômetros do litoral argentino. Jorge passou cerca de 38 anos no aquário da cidade, tornando-se conhecido por diferentes gerações de moradores que visitavam o local.
Durante parte desse período, viveu em um tanque de aproximadamente 20 mil litros, com profundidade em torno de 1,4 a 1,5 metro. A água possuía uma concentração de sal muito inferior à encontrada normalmente no oceano.
Sua alimentação também havia se afastado completamente daquela que teria em ambiente natural. Reportagens sobre o processo de recuperação apontam que ele chegou a receber alimentos como carne bovina e ovos cozidos.
Ao longo dos anos, porém, cresceu a pressão para que o animal fosse retirado daquela condição. Uma campanha por sua transferência reuniu dezenas de milhares de assinaturas, enquanto especialistas começaram a avaliar se seria possível devolver ao mar um animal que havia permanecido tanto tempo em cativeiro.
Antes de voltar ao oceano, até a salinidade da água precisou ser alterada
A preparação começou de forma cuidadosa porque simplesmente colocar Jorge no mar poderia colocar sua vida em risco.
Durante aproximadamente 14 meses, pesquisadores aumentaram progressivamente a salinidade da água onde ele vivia até chegar a níveis semelhantes aos encontrados no ambiente marinho.
Exames de sangue foram realizados para acompanhar substâncias como sódio, potássio e cloro, permitindo verificar como o organismo reagia às mudanças.
Também foram feitos exames clínicos, radiografias e avaliações físicas antes da próxima etapa do processo.
Em 26 de outubro de 2022, após quase 39 anos vivendo em Mendoza, Jorge foi novamente colocado em um avião. Desta vez, o destino era Mar del Plata, cidade costeira onde seria preparado de maneira definitiva para retornar ao oceano.
Jorge ganhou uma piscina de 150 mil litros e precisou recuperar a capacidade de caçar
No Centro de Reabilitación de Fauna Marina do Aquarium Mar del Plata, Jorge passou a viver em condições muito mais próximas das que encontraria no mar.
A nova piscina tinha mais de 150 mil litros de água e aproximadamente três metros de profundidade, um espaço várias vezes maior do que aquele ao qual estava acostumado.
A profundidade foi aumentada gradualmente. Os pesquisadores queriam saber se ele teria força suficiente para nadar até a superfície repetidamente para respirar.
Mas uma das etapas mais importantes envolvia a alimentação.
Depois de décadas recebendo comida diretamente dos tratadores, Jorge precisava mostrar que ainda conseguia caçar sozinho.
Os pesquisadores começaram a colocar presas vivas dentro do recinto, entre elas caranguejos e outros pequenos animais marinhos. Estruturas capazes de atrair organismos também foram instaladas para estimular Jorge a procurar alimento.
Em fevereiro de 2024, os responsáveis pela recuperação já registravam um avanço decisivo: Jorge estava capturando e comendo caranguejos por conta própria.
Arraias, correntes e objetos foram usados para preparar Jorge para a vida selvagem
A preparação não terminou quando ele voltou a caçar.
Entre agosto de 2024 e abril de 2025, os especialistas aumentaram os estímulos dentro do recinto. O objetivo era fazer com que Jorge voltasse a responder a situações imprevisíveis, semelhantes às que encontraria no oceano.
Objetos desconhecidos, mudanças ambientais e outros animais passaram a fazer parte de sua rotina.
Em determinado momento, arraias foram introduzidas na piscina. Jorge inicialmente chegou a se aproximar de uma delas como se fosse alimento, mas recuou quando o animal começou a se movimentar.
Também foram produzidas correntes artificiais, fazendo com que ele precisasse nadar contra o movimento da água.
Gradualmente, os pesquisadores observaram aumento da exploração do ambiente, da procura ativa por alimento e dos deslocamentos prolongados.
Jorge parecia novamente agir como uma tartaruga selvagem.
Análise genética indicou que sua origem poderia estar na Bahia
Enquanto preparavam Jorge para a liberdade, cientistas também estudaram sua genética.
Os resultados indicaram uma forte ligação com populações de tartarugas-cabeçudas associadas a Praia do Forte, na Bahia, uma das principais regiões de reprodução da espécie no Brasil.
Isso não permite afirmar exatamente em qual praia Jorge nasceu, mas sugere que sua população de origem poderia estar no litoral brasileiro.
A descoberta tornaria ainda mais interessante o comportamento registrado depois de sua soltura.
Mesmo tendo passado praticamente quatro décadas afastado do oceano, Jorge aparentemente ainda conservava referências naturais adquiridas durante os primeiros anos de vida.
Em 11 de abril de 2025, Jorge finalmente voltou ao mar
Na manhã de 11 de abril de 2025, chegou o momento esperado por pesquisadores e pessoas que haviam acompanhado sua história durante décadas.
A Prefectura Naval Argentina transportou Jorge em uma embarcação até uma área localizada aproximadamente 18 a 22 quilômetros da costa de Mar del Plata.
Antes da libertação, um transmissor via satélite foi instalado sobre seu casco. Marcas colocadas nas nadadeiras e registros fotográficos também permitiriam sua identificação caso fosse encontrado novamente.
Quando tocou a água, Jorge não ficou parado.
Segundo relato de integrantes da equipe, mergulhou e rapidamente desapareceu da vista dos pesquisadores.
O primeiro sinal do transmissor chegou na manhã seguinte.
Jorge estava nadando para o norte.
Em apenas 18 dias, a tartaruga já havia chegado às águas brasileiras
Os primeiros dados mostraram um deslocamento impressionante para um animal que havia passado décadas vivendo em um tanque.
Jorge atravessou águas argentinas e uruguaias e, em aproximadamente 18 dias, alcançou o extremo sul do Brasil depois de percorrer cerca de 780 a 800 quilômetros.
Um mês depois da libertação, já havia acumulado aproximadamente 1.200 quilômetros.
O comportamento também começou a apresentar características esperadas para animais selvagens. Jorge alternava períodos de deslocamento rápido com momentos em que permanecia dentro de áreas menores, possivelmente procurando alimento ou descansando.
Após cerca de 70 dias de liberdade, o rastreamento apontava mais de 2.700 quilômetros percorridos.
Jorge entrou na Baía de Guanabara e o sinal desapareceu após 109 dias
No início de julho de 2025, o Projeto Tamar informou que Jorge já havia superado 3 mil quilômetros de percurso.
Poucos dias depois aconteceu outro episódio inesperado.
Em 16 de julho de 2025, o transmissor indicou que a tartaruga havia entrado na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Pesquisadores brasileiros passaram a acompanhar com atenção os deslocamentos do animal, principalmente devido ao tráfego de embarcações, à atividade pesqueira e à poluição existente na região. Ao mesmo tempo, a baía oferece grande disponibilidade de alimentos consumidos pela espécie.
Jorge permaneceu circulando pela área até que, às 00h58 de 29 de julho de 2025, o transmissor deixou de enviar sinais.
Ao todo, foram 109 dias de monitoramento depois da libertação e aproximadamente 3,5 mil a 4 mil quilômetros percorridos.
O fim do sinal não significa que Jorge tenha morrido. Equipamentos desse tipo podem parar de funcionar por desgaste, bateria, crescimento de organismos sobre o aparelho ou problemas no sensor.
Até abril de 2026, pesquisadores brasileiros ainda não possuíam uma nova localização confirmada do animal.
Depois de 41 anos sob cuidados humanos, Jorge mostrou que ainda sabia viver no oceano
A experiência transformou Jorge em um caso particularmente importante para pesquisadores que trabalham com reabilitação de animais marinhos.
Além de ter permanecido mais de quatro décadas em cativeiro, ele voltou ao oceano já com aproximadamente 60 anos, recuperou a capacidade de capturar alimento e apresentou padrões de deslocamento compatíveis com uma tartaruga selvagem.
O fato de ser macho também aumentou o valor científico do acompanhamento. Grande parte das pesquisas com tartarugas adultas envolve fêmeas, mais fáceis de localizar quando retornam às praias para colocar seus ovos.
Jorge, ao contrário, simplesmente desapareceu no oceano depois de ser libertado.
O transmissor permitiu acompanhar apenas uma pequena parte dessa nova etapa. Mas os quase 4 mil quilômetros registrados em liberdade mostraram que, mesmo depois de décadas vivendo dentro de um aquário, alguns dos comportamentos que havia aprendido antes de ser capturado continuavam presentes.
Depois de atravessar novamente o Atlântico Sul e chegar sozinho às águas brasileiras, Jorge voltou a fazer aquilo que pesquisadores durante anos tentaram prepará-lo para fazer: viver como uma tartaruga selvagem.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

