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Governo chinês ameaça barrar a transferência de 12 tecnologias solares e coloca fabricantes estrangeiros diante de uma disputa pelos painéis mais eficientes do mundo
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 20/10/2026 às 16:30
Atualizado em 20/10/2026 às 16:35
Energia Renovável
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China propõe restringir 12 tecnologias solares e barrar processos para células de alta eficiência. Entenda os impactos sobre a indústria mundial.
O governo chinês decidiu colocar sob controle algumas das tecnologias mais avançadas usadas na fabricação de painéis solares e abriu uma nova disputa com empresas que pretendem produzir esses equipamentos fora de seu território. Em 16 de outubro de 2026, Pequim apresentou uma proposta para proibir ou restringir a transferência internacional de 12 tecnologias ligadas à produção de energia fotovoltaica. Segundo o Ministério do Comércio da China, a iniciativa busca proteger tecnologias consideradas sensíveis para a segurança nacional.
Entre os processos ameaçados estão métodos de fabricação de células solares capazes de converter pelo menos 30% da luz recebida em eletricidade. A decisão ainda depende de uma consulta pública, mas as empresas que pretendem transferir determinadas tecnologias para outros países já precisam cumprir uma exigência de registro junto às autoridades chinesas.
Governo chinês apresenta proposta que pode mudar a fabricação de painéis solares fora do país
O documento publicado pelos ministérios do Comércio e da Ciência e Tecnologia da China recebeu o número 48 de 2026. Ele propõe uma revisão do catálogo nacional de tecnologias cuja exportação pode ser proibida ou limitada pelo governo.
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A mudança alcança três etapas da fabricação de equipamentos solares: produção de polissilício, preparação de lâminas de silício e fabricação das células responsáveis por transformar a luz do sol em eletricidade.
Essas etapas estão presentes nas fábricas que fornecem componentes para parques solares, sistemas instalados em telhados e outros projetos de geração de energia.
A proposta chinesa não determina o fim da exportação de painéis solares prontos. O principal alvo são os conhecimentos técnicos, processos industriais e determinados equipamentos usados para fabricar componentes avançados.
A diferença é decisiva para quem pretende construir uma fábrica. Comprar um painel pronto é uma operação comercial. Receber a tecnologia para produzir esse mesmo painel exige acesso a máquinas, métodos de fabricação e conhecimentos especializados.
O governo chinês pretende controlar parte dessas transferências, inclusive quando envolvem a instalação, o ajuste e a modernização de linhas industriais no exterior.
Células solares com eficiência de 30% entram na mira das restrições mais duras
Entre os processos que podem ser proibidos, um dos mais avançados envolve a fabricação de células solares tandem de perovskita e silício. A proposta alcança tecnologias que utilizam lâminas de pelo menos 182 milímetros e conseguem atingir eficiência igual ou superior a 30%.
Eficiência é a parcela da luz solar que um equipamento consegue transformar em eletricidade. Quanto maior esse percentual, mais energia pode ser produzida com a mesma quantidade de luz recebida.
Uma célula com eficiência de 30%, por exemplo, converte 30% da energia luminosa incidente em eletricidade nas condições de medição utilizadas.
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O controle proposto não significa que todos os painéis solares já alcancem esse desempenho. A regra trata de processos específicos de fabricação, com características e limites técnicos definidos pelo governo chinês.
Se a proposta for aprovada, transferir esses processos para uma empresa estrangeira poderá ser proibido, mesmo quando houver interesse comercial de ambas as partes.
Duas camadas trabalham juntas para aproveitar melhor a luz do sol
A tecnologia tandem utiliza materiais diferentes na mesma célula solar. Uma das combinações pesquisadas pela indústria coloca uma camada de perovskita sobre uma base de silício.
A perovskita é uma família de materiais que pode absorver determinadas partes da luz solar. O silício aproveita outras partes. Quando trabalham juntos, esses materiais permitem captar uma parcela maior da energia luminosa.
É justamente essa combinação que atrai fabricantes interessados em desenvolver painéis mais eficientes.
Mas produzir uma célula com bom desempenho em laboratório não é a mesma coisa que fabricar milhares delas diariamente.
Uma fábrica precisa controlar a espessura dos materiais, evitar defeitos e manter o resultado ao longo de toda a linha de produção. Também precisa garantir que as células continuem funcionando durante anos.
A proposta chinesa alcança conhecimentos e processos industriais usados para fabricar determinadas células tandem de alto desempenho. Não se trata de uma proibição geral de pesquisas com perovskita em outros países.
Processos industriais para fabricar módulos de perovskita também podem ser proibidos
A proposta vai além das células individuais. Ela inclui métodos utilizados para produzir módulos maiores, preparados para aplicações práticas.
Um dos processos citados utiliza uma técnica chamada slot-die coating. Nesse método, uma máquina espalha uma camada muito fina de material sobre uma superfície. A espessura precisa ser controlada para evitar falhas na célula.
O texto chinês propõe barrar a transferência de determinadas tecnologias desse tipo quando a largura de aplicação alcança pelo menos 1,1 metro.
Outros critérios atingem processos de fabricação de módulos de perovskita com área mínima de um metro quadrado.
Para módulos feitos com uma única junção de perovskita, o limite indicado é de 18% de eficiência. Para módulos tandem, que combinam diferentes materiais, o patamar sobe para 28%.
Esses números fazem parte dos critérios da proposta de controle tecnológico. Eles não são exigências gerais de eficiência para todos os painéis comercializados no mundo.
Produção de polissilício entra na disputa por processos industriais mais eficientes
Antes de uma célula solar chegar à linha de montagem, a indústria precisa produzir materiais com elevado grau de pureza.
O polissilício é uma dessas matérias-primas. Ele permite fabricar as lâminas utilizadas em grande parte das células solares disponíveis no mercado.
Pequim também pretende controlar métodos avançados empregados nessa etapa.
Entre eles estão processos de produção em leito fluidizado. Nesse sistema, determinadas reações químicas ocorrem em equipamentos que movimentam partículas e gases sob condições controladas.
A proposta inclui tecnologias de hidrogenação a frio ligadas à produção de triclorossilano, com capacidade de pelo menos 250 mil toneladas por ano em uma única linha.
Também estão previstos controles sobre processos que utilizam silano em leito fluidizado, quando alcançam capacidade anual mínima de 20 mil toneladas.
A tecnologia de leito fluidizado pode consumir menos energia e apresentar custos menores que o processo Siemens, tradicionalmente empregado na fabricação de polissilício.
Para uma indústria que precisa produzir grandes volumes, o consumo de eletricidade e o custo de cada etapa influenciam diretamente o preço final.
Lâminas de silício com apenas 70 micrômetros entram na lista de possíveis proibições
Outra parte da proposta mira tecnologias capazes de fabricar lâminas extremamente finas. Essas lâminas, chamadas wafers, são pequenas placas de silício sobre as quais as células solares são produzidas.
O governo chinês pretende proibir a transferência de determinados processos destinados à fabricação de wafers com espessura igual ou inferior a 70 micrômetros.
Um micrômetro corresponde a um milésimo de milímetro. Portanto, uma lâmina de 70 micrômetros possui apenas 0,07 milímetro de espessura.
Fabricar peças tão finas permite reduzir o consumo de silício, mas também exige cuidados para evitar que elas se quebrem durante a produção.
A proposta prevê restrições adicionais para métodos avançados de crescimento de cristais e corte de lâminas, incluindo determinadas tecnologias para wafers de até 130 micrômetros.
O governo não pretende proibir toda a fabricação de lâminas finas fora da China. O texto identifica processos e equipamentos que atendem a condições específicas.
Tecnologias TOPCon, HJT e XBC poderão continuar sendo exportadas mediante autorização
Nem todas as tecnologias mencionadas na proposta receberiam o mesmo tratamento. Enquanto determinados processos de fabricação de células de perovskita e tandem entram na categoria de possível proibição, outras técnicas avançadas poderão ficar sujeitas a licenças governamentais.
É o caso de métodos ligados às tecnologias TOPCon, HJT e XBC, utilizadas na produção de células solares de silício com alto desempenho.
A TOPCon utiliza contatos especiais para reduzir perdas de energia dentro da célula. A HJT combina diferentes camadas de silício. Já as células de contato traseiro, como as XBC, colocam as conexões elétricas na parte de trás para aproveitar melhor a superfície exposta à luz.
Os processos sujeitos a restrição poderão ser transferidos ao exterior se receberem as autorizações exigidas pela legislação chinesa.
Já as tecnologias classificadas como proibidas não poderão ser exportadas caso essa classificação seja aprovada.
Registro obrigatório já entrou em vigor e alcança transferências em andamento
Embora as novas proibições e restrições ainda estejam em discussão, uma exigência começou a valer em 16 de outubro de 2026.
As empresas precisam registrar determinadas operações de transferência de tecnologia abrangidas pelo anúncio antes de realizá-las.
O registro ocorre na plataforma eletrônica do Ministério do Comércio chinês e exige informações sobre o fornecedor, o destinatário, a tecnologia envolvida, seu uso previsto e o valor estimado da operação.
A obrigação alcança transferências de direitos sobre tecnologias, autorizações de uso no exterior e determinadas mudanças de propriedade ou controle para entidades estrangeiras.
Operações iniciadas antes da publicação, mas ainda não concluídas, também podem precisar de registro.
Equipamentos essenciais que carregam as tecnologias alcançadas pelos critérios estabelecidos também entram nessa exigência temporária. O registro prévio não equivale à proibição definitiva da transferência. Trata-se de uma medida de acompanhamento que permanecerá aplicável até a implementação formal da revisão do catálogo.
Pequim passou, portanto, a receber informações sobre determinadas transferências antes mesmo de decidir quais processos serão efetivamente proibidos ou submetidos a licenças.
Segurança nacional aparece como justificativa para proteger processos industriais
Na explicação apresentada pelas autoridades chinesas, a energia fotovoltaica deixou de ter aplicações apenas em instalações comerciais e na geração convencional de eletricidade.
O Ministério do Comércio aponta que essas tecnologias também são utilizadas em equipamentos aeroespaciais, sistemas de defesa, dispositivos não tripulados e instalações de segurança elevada.
Por isso, o governo considera necessário controlar a saída de determinados conhecimentos considerados sensíveis. Pequim afirma que a revisão não foi preparada contra um país, uma região ou uma empresa específica.
Também sustenta que as tecnologias que não alcançam os limites previstos poderão continuar sendo transferidas livremente, respeitadas outras regras aplicáveis.
O ministério esclareceu ainda que os produtos fabricados com tecnologias controladas não estão, por esse motivo, automaticamente incluídos nas restrições.
Fabricantes dos Estados Unidos e da Índia enfrentam incerteza sobre novas fábricas
A disputa também alcança países que pretendem ampliar sua própria produção de equipamentos fotovoltaicos.
Nos Estados Unidos, empresas interessadas em expandir a fabricação nacional podem precisar avaliar se determinados equipamentos e conhecimentos industriais chineses continuarão disponíveis.
A agência Reuters informou que autoridades chinesas já haviam realizado conversas com fabricantes sobre possíveis controles em abril de 2026.
Na ocasião, a discussão levantou preocupações sobre projetos industriais americanos, incluindo planos ligados à Tesla.
Na Índia, o desafio envolve os esforços para ampliar a produção nacional e reduzir a dependência de fornecedores chineses.
O país já enfrentava limitações relacionadas à obtenção de determinadas tecnologias de fabricação solar provenientes da China, conforme informações divulgadas pela Reuters.
A nova proposta pode acrescentar exigências às empresas que dependem de equipamentos chineses para instalar fábricas, treinar trabalhadores e alcançar os níveis de eficiência previstos em seus projetos.
Ainda não há confirmação de cancelamento de investimentos específicos como consequência direta do anúncio de outubro.
Os efeitos dependerão do texto final, das autorizações concedidas e dos processos tecnológicos utilizados em cada empreendimento.
A indústria solar brasileira poderá sentir os efeitos nas futuras decisões de investimento
Para o Brasil, a proposta merece atenção principalmente pelo possível impacto sobre projetos de fabricação de equipamentos fotovoltaicos.
Empresas brasileiras que apenas compram módulos solares acabados não estão diretamente sujeitas às proibições tecnológicas descritas na minuta.
O cenário é diferente para uma companhia que pretende instalar uma fábrica, adquirir processos avançados ou desenvolver uma parceria industrial com fornecedores chineses.
Nesse caso, será necessário verificar se a tecnologia escolhida atende aos critérios de controle e se sua transferência depende de autorização.
As eventuais exigências também poderão influenciar a escolha de máquinas, parceiros e cronogramas industriais.
Não há, até o momento, confirmação de que a proposta tenha provocado aumento de preços dos painéis solares no mercado brasileiro ou impedido algum investimento específico no país.
A principal incerteza está no acesso futuro a processos de fabricação de maior eficiência.
Enquanto a consulta pública segue aberta, governos e empresas interessados em produzir células solares avançadas precisarão acompanhar a decisão chinesa.
Em 15 de novembro de 2026, termina o prazo para receber contribuições sobre a minuta. Depois disso, Pequim poderá definir como funcionará o controle sobre os processos industriais incluídos na revisão.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

