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Índia zera açúcar destinado ao etanol, ações de usinas despencam e licitação de 11 bilhões de litros expõe disputa por alimento e combustível com preços em alta
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 20/10/2026 às 16:06
Atualizado em 20/10/2026 às 16:25
Biocombustíveis Renováveis
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Com o açúcar caro e a safra sob risco, a Índia excluiu caldo de cana, xarope e melaço B da licitação de 11 bilhões de litros de etanol para 2026/27. Ações de usinas caíram até 6%, enquanto milho e arroz seguem aceitos.
O governo da Índia tirou o açúcar e matérias-primas ricas em açúcar da nova compra de etanol para misturar à gasolina. A decisão, comunicada na licitação de 16 de outubro, teve reação imediata: em 19 de outubro, ações de grandes usinas indianas caíram entre 2% e 6%. O programa indiano de biocombustíveis continua, mas a licitação de 11 bilhões de litros agora favorece matérias-primas diferentes das que abasteciam parte das destilarias de cana.
O motivo está no preço do açúcar que chega à mesa das famílias indianas. Com açúcar mais caro e incerteza sobre a próxima colheita, o governo decidiu reservar uma parcela maior da cana para produzir o alimento. As empresas que alternavam a fabricação de açúcar e álcool de acordo com a rentabilidade agora perdem parte dessa liberdade.
Uma licitação de 11 bilhões de litros muda as regras para as usinas
O edital lançado pela Bharat Petroleum em 16 de outubro, em nome de distribuidoras públicas de combustíveis, prevê adquirir aproximadamente 11 bilhões de litros de etanol entre novembro de 2026 e outubro de 2027. O volume é destinado à mistura do biocombustível à gasolina, na política indiana de combustível com 20% de etanol.
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Mas, dessa vez, o edital deixou de receber ofertas de etanol fabricado com caldo de cana, açúcar, xarope de açúcar e melaço B-pesado. Esse último é um subproduto da fabricação de açúcar que ainda guarda uma quantidade relevante de açúcares fermentáveis, usados pelas destilarias.
O edital mantém o etanol feito com melaço C-pesado, resíduo que sobra depois da retirada de mais açúcar. Também são aceitas ofertas de etanol produzido a partir de milho, arroz quebrado e excedentes de arroz fornecidos pela estatal indiana Food Corporation of India.
A mudança atinge as matérias-primas aceitas nessa compra de etanol. A mistura à gasolina continua prevista. O governo quer manter o abastecimento do combustível recorrendo principalmente a alternativas que não retirem açúcar disponível para consumo.
O açúcar ficou mais caro justamente antes da temporada de maior consumo
Na Índia, uma alta do açúcar rapidamente vira assunto político. O país é o maior consumidor mundial do produto, muito usado em doces e alimentos vendidos em festivais. Segundo a Reuters, os preços tinham subido mais de 10% na temporada de celebrações, intensificando o receio de novas altas antes da moagem principal.
O Financial Express informou que, em 16 de outubro, o preço médio do açúcar ao consumidor chegava a 57,82 rúpias por quilo, alta de 24% sobre um ano antes. A preocupação aumentou com a falta de chuvas em partes dos estados de Maharashtra e Karnataka, duas áreas importantes para a cana.
Há uma diferença entre a falta de chuva apontada para a safra que se aproxima e a certeza de uma quebra de produção. A associação indiana de produtores ISMA ainda pretendia avaliar o rendimento das lavouras durante o avanço da colheita. Com menos matéria-prima disponível, cada tonelada usada em combustível deixa de contribuir para a oferta de açúcar.
Usinas perdem a escolha que ajudava a equilibrar receitas
Para empresas que fabricam os dois produtos, a possibilidade de direcionar o caldo de cana e o melaço ao etanol funcionava como alternativa quando os preços do açúcar ficavam menos atrativos. A restrição muda esse equilíbrio de forma abrupta.
As ações de Balrampur Chini Mills, EID Parry, Triveni Engineering and Industries, Bajaj Hindusthan Sugar, Shree Renuka e Dhampur Sugar recuaram de 2% a 6% no pregão da manhã de 19 de outubro, segundo levantamento publicado pela Reuters. A queda refletiu a preocupação dos investidores com margens menores e o retorno de projetos de expansão de destilarias.
As usinas também podem vender mais açúcar no mercado interno, a depender da quantidade de cana moída e da qualidade da safra. O resultado financeiro, porém, depende de preços, custos e contratos de cada empresa. A desvalorização das ações registra o receio dos investidores em 19 de outubro; os efeitos nas receitas dependerão das vendas e dos resultados dos próximos meses.
Milho e arroz ganham espaço, mas o etanol de milho recebe preço menor
Mesmo com o corte na entrada de matérias-primas açucaradas, as distribuidoras mantiveram a previsão de comprar cerca de 11 bilhões de litros. Essa demanda abre espaço para fornecedores de etanol de grãos, particularmente os que operam com milho, arroz quebrado e excedentes de arroz autorizados.
A própria licitação, entretanto, trouxe um ajuste que pesa no bolso de outra parte da indústria: o preço de compra do etanol de milho passou de 71,86 para 68,86 rúpias por litro, conforme a agência Press Trust of India. O incentivo incluído nessa conta também caiu, de 5,79 para 2,79 rúpias.
As empresas do setor precisam, ao mesmo tempo, preparar novas ofertas de combustível e calcular quanto receberão por cada litro vendido. O país quer preservar açúcar para as famílias e continuar usando etanol para reduzir a necessidade de petróleo importado, mas enfrenta custos e limites de produção em cada matéria-prima.
Por que o governo decidiu mexer em uma política que vinha crescendo
O etanol tornou-se uma fonte importante de receita para usinas indianas ao longo dos últimos anos. Segundo a associação industrial ISMA, cerca de 3 milhões de toneladas de açúcar foram desviadas para sua fabricação no ciclo 2025/26. Essa quantidade havia sido de aproximadamente 800 mil toneladas na safra 2019/20, segundo dados citados pelo Financial Express.
Em agosto, um documento do próprio governo indiano informava que quase três quartos do etanol produzido no país já vinham de grãos, principalmente milho. Ainda assim, a cana mantinha um papel importante para usinas que produzem açúcar e biocombustíveis na mesma instalação.
Ao restringir os insumos mais ricos em açúcar na licitação, o governo tenta administrar um período de menor folga no abastecimento. A decisão chega depois da adoção nacional da gasolina E20, com 20% de etanol, e coloca em revisão os planos de fornecimento das usinas.
E o Brasil? Há interesse em açúcar, mas nenhuma venda automática
O Brasil entra na história como possível fornecedor de açúcar, não como destinatário de uma encomenda nova anunciada por causa da licitação. Em agosto, autoridades indianas permitiram a importação com tarifa zerada de até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto, conforme informação oficial do governo. O objetivo era reforçar a disponibilidade interna.
Em 17 de outubro, o Financial Express relatou que, apesar da abertura dessa cota, as importações haviam sido pequenas devido à relação entre preços internacionais e domésticos. O diretor-geral da ISMA, Deepak Ballani, avaliou que a Índia poderia precisar importar pelo menos 1 milhão de toneladas até meados de 2027. É uma avaliação da indústria, sujeita à evolução da colheita e dos preços.
Para produtores e exportadores brasileiros, o mercado indiano merece atenção nos próximos meses. Ainda faltam elementos para afirmar que haverá compras adicionais do Brasil, mudanças em contratos de etanol ou impacto imediato nos postos brasileiros por causa da decisão.
Próxima etapa começa em novembro, com usinas e distribuidoras refazendo planos
O novo ano de fornecimento de etanol começa em 1º de novembro de 2026 e vai até 31 de outubro de 2027. Até lá, a indústria precisará avaliar quanto poderá oferecer com os insumos aceitos na licitação e como a produção de açúcar reagirá à colheita.
As próximas entregas de etanol, os resultados da colheita de cana e a evolução do preço do açúcar dirão quanto as usinas conseguirão produzir e vender sob as novas regras. Para um país que consome tanto açúcar e quer misturar mais etanol à gasolina, essa disputa entre alimento e combustível está longe de terminar.
Você acha que os governos devem priorizar o abastecimento de alimentos mesmo quando isso muda os planos dos biocombustíveis? Deixe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

