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TotalEnergies prepara US$ 10 bilhões para ampliar petróleo e gás na Argentina enquanto Vaca Muerta acelera e se aproxima cada vez mais do mercado brasileiro
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 06/10/2026 às 19:44
Atualizado em 06/10/2026 às 19:45
Petróleo e Gás
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TotalEnergies prepara quase US$ 10 bilhões para ampliar petróleo e gás na Argentina enquanto Vaca Muerta acelera produção e mira o Brasil.
A Argentina acaba de colocar sobre a mesa uma das maiores novas ondas de investimento em petróleo e gás da América do Sul. Segundo a Reuters, a TotalEnergies anunciou em 1º de outubro de 2026 que possui aproximadamente US$ 10 bilhões em investimentos planejados no país, distribuídos entre novos poços de gás no extremo sul, expansão em Vaca Muerta e um grande desenvolvimento de petróleo não convencional na província de Neuquén.
O movimento ocorre enquanto a formação de Vaca Muerta já produz perto de 670 mil barris de petróleo e 95 milhões de metros cúbicos de gás por dia, aproximando a Argentina de uma nova fase de exportações em grande escala.
Para o Brasil, a expansão acontece do outro lado da fronteira em um momento estratégico. Os dois países já trabalham em rotas capazes de transportar gás argentino até consumidores brasileiros, incluindo o uso da infraestrutura boliviana, conexões pelo Rio Grande do Sul e alternativas que passam por Paraguai e Uruguai.
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Quanto mais Vaca Muerta produzir, maior poderá ser a quantidade de gás disponível para competir com GNL importado e com o próprio gás produzido no pré-sal brasileiro.
TotalEnergies colocou quase US$ 10 bilhões de novos projetos sobre a mesa
O anúncio foi feito pelo presidente e CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, durante um encontro de investimentos realizado em Paris, enquanto o presidente argentino Javier Milei visitava a França.
O pacote não representa uma única obra. Trata-se de diferentes projetos de petróleo e gás que deverão avançar em regiões distintas da Argentina.
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Entre os principais eixos aparecem o desenvolvimento offshore na Terra do Fogo, a ampliação do gás de Aguada Pichana Este e um grande projeto de shale oil no bloco San Roque, dentro da formação Vaca Muerta.
Isso coloca a companhia francesa numa posição ainda mais relevante dentro da transformação energética argentina.
San Roque pode receber cerca de US$ 5 bilhões para produzir petróleo em Vaca Muerta
Uma das maiores parcelas deverá ser direcionada ao petróleo não convencional. O projeto de San Roque, em Neuquén, aparece associado a aproximadamente US$ 5 bilhões em investimentos para desenvolver recursos da janela de petróleo de Vaca Muerta.
A TotalEnergies já opera o bloco e pretende expandir fortemente a atividade por meio da perfuração de poços horizontais e do fraturamento hidráulico.
Esse modelo é diferente dos grandes projetos offshore brasileiros. Em Vaca Muerta, a produção é realizada em terra, com longos poços horizontais atravessando a rocha rica em hidrocarbonetos.
Depois, água, areia e outros fluidos são injetados sob alta pressão para abrir pequenas fraturas e permitir que petróleo e gás presos na formação cheguem ao poço.
O resultado vem transformando áreas áridas de Neuquén em uma enorme zona industrial.
Vaca Muerta já ultrapassou 600 mil barris de petróleo por dia
Os investimentos chegam quando a formação já deixou de ser apenas uma promessa geológica. Em julho de 2026, o governo argentino informou que Vaca Muerta produziu 643,1 mil barris de petróleo por dia. O volume representou crescimento de 26,4% em relação ao mesmo mês de 2025.
A produção argentina total naquele mês atingiu 916,2 mil barris por dia, outro recorde nacional. Em agosto, estimativas citadas pela Reuters colocaram Vaca Muerta perto de 670 mil barris diários.
Isso significa que apenas essa formação já entrega volumes comparáveis aos de países produtores inteiros.
No gás, Vaca Muerta produziu 96,5 milhões de metros cúbicos por dia em julho, segundo dados oficiais argentinos.
Argentina agora calcula mais de 30 bilhões de barris tecnicamente recuperáveis
Outra atualização tornou a escala da formação ainda mais impressionante.
Em agosto de 2026, o governo argentino divulgou um novo estudo estimando em aproximadamente 30,17 bilhões de barris os recursos de petróleo tecnicamente recuperáveis de Vaca Muerta.
A nova avaliação ficou 89% acima de uma estimativa internacional publicada em 2013.
Isso não significa que existam 30 bilhões de barris classificados como reservas comerciais prontas para serem produzidas.
Recursos tecnicamente recuperáveis representam volumes que podem ser extraídos utilizando tecnologias disponíveis, mas ainda dependem de preço, infraestrutura, investimentos e condições econômicas para se transformar em reservas e produção efetiva.
Mesmo com essa diferença, o número reforça a dimensão geológica da região.
TotalEnergies já opera cerca de um quarto do gás argentino
A companhia francesa não está chegando agora à Argentina. A TotalEnergies opera no país desde 1978 e afirma ser a principal produtora internacional de gás natural em território argentino.
Por meio da subsidiária Total Austral, a empresa opera aproximadamente 25% da produção nacional de gás.
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Sua presença está dividida principalmente entre duas regiões. No extremo sul estão as operações da Terra do Fogo e do offshore da Cuenca Marina Austral.
Mais ao norte, na província de Neuquén, estão os ativos ligados a Vaca Muerta, como Aguada Pichana Este, San Roque e Pampa de Las Yeguas.
A empresa possui mais de 1.100 funcionários na Argentina e também opera projetos de energia solar, eólica e distribuição de produtos.
Aguada Pichana pode elevar ainda mais a produção de gás
Outra frente do pacote está ligada diretamente ao gás de Vaca Muerta. A TotalEnergies pretende investir bilhões de dólares ao longo da próxima década para ampliar a capacidade do projeto Aguada Pichana Este.
Patrick Pouyanné afirmou que a companhia pretende elevar a produção para aproximadamente 16 milhões de metros cúbicos de gás por dia.
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Para chegar a esse nível, serão necessários novos poços, instalações de superfície, equipamentos de compressão, sistemas de coleta e infraestrutura capaz de transportar volumes maiores.
Essa expansão interessa especialmente ao Brasil porque o gás produzido em Neuquén está geograficamente muito mais próximo dos grandes consumidores do Sul e Sudeste brasileiro do que cargas de GNL trazidas por navios de outros continentes.
No extremo sul, novos poços serão perfurados no mar
A TotalEnergies também prepara investimentos na Terra do Fogo. Uma das iniciativas anunciadas envolve aproximadamente US$ 1,5 bilhão em um novo desenvolvimento offshore, além de novas perfurações. A região não é nova para a companhia.
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A TotalEnergies já opera vários campos de gás na Cuenca Marina Austral, incluindo Hidra, Kaus, Carina, Aries, Vega Pléyade e Fénix.
Esses campos formam uma rede de plataformas, poços e gasodutos instalados diante do extremo sul do continente.
A utilização de infraestrutura existente pode reduzir o custo de novos projetos porque parte do sistema de escoamento e processamento já está disponível.
Fénix mostrou como a empresa consegue adicionar gás usando estruturas existentes
Um exemplo dessa estratégia entrou em operação em setembro de 2024. O campo de Fénix fica aproximadamente 60 quilômetros da costa da Terra do Fogo e possui capacidade de produzir até 10 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia. O projeto utiliza três poços horizontais e uma plataforma automatizada.
O gás percorre aproximadamente 35 quilômetros por um gasoduto submarino até Vega Pléyade. A partir dali, segue para instalações terrestres de tratamento.
A TotalEnergies informou investimento superior a US$ 700 milhões no empreendimento.
Essa capacidade equivale a aproximadamente 70 mil barris de óleo equivalente por dia e mostra a dimensão que um único desenvolvimento de gás pode alcançar no extremo sul argentino.
Produção argentina começa a superar um antigo problema energético
Durante anos, a Argentina possuía enormes recursos de gás, mas ainda precisava importar volumes significativos durante períodos de maior demanda. Vaca Muerta começou a mudar essa situação.
O aumento da produção permitiu reduzir importações e criar capacidade para enviar gás aos países vizinhos.
Ao mesmo tempo, novos oleodutos estão ampliando a capacidade de escoamento do petróleo produzido em Neuquén. O objetivo agora não é apenas abastecer o mercado doméstico.
A Argentina quer se transformar em grande exportadora de energia, utilizando oleodutos, gasodutos e futuros projetos de gás natural liquefeito.
É justamente nesse ponto que o Brasil entra no mapa.
Brasil quer chegar a até 30 milhões de m³ por dia de gás argentino
Brasil e Argentina assinaram um memorando para estudar como ampliar as exportações de gás de Vaca Muerta para o mercado brasileiro.
O Ministério de Minas e Energia trabalha com uma trajetória potencial que começa com aproximadamente 2 milhões de metros cúbicos por dia, pode alcançar 10 milhões de m³/dia em alguns anos e chegar a até 30 milhões de m³/dia por volta de 2030.
Esses números representam cenários de integração e dependem da viabilidade econômica, capacidade dos gasodutos, contratos e investimentos.
Não existe hoje uma estrutura pronta para transportar imediatamente 30 milhões de metros cúbicos diários de Neuquén ao coração do mercado brasileiro. Diversas rotas estão sendo avaliadas justamente porque será necessário superar essa limitação.
Gasoduto da Bolívia pode mudar de direção para trazer gás argentino
Uma das alternativas utiliza uma infraestrutura que o Brasil conhece há décadas. O Gasoduto Bolívia-Brasil foi construído originalmente para transportar gás boliviano em direção ao mercado brasileiro.
Com a queda da produção da Bolívia, surgiu a possibilidade de utilizar parte dessa rede para trazer gás argentino.
O produto sairia de Vaca Muerta, cruzaria a Bolívia e depois entraria no Gasbol em direção ao Brasil. A grande vantagem está no reaproveitamento de tubulações já instaladas.
Por outro lado, ainda são necessárias soluções comerciais e operacionais para movimentar volumes grandes de forma contínua.
Outra rota pode entrar diretamente pelo Rio Grande do Sul
Existe também a possibilidade de uma ligação mais direta entre Argentina e Brasil. Uma das alternativas estudadas envolve a região de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.
Nesse caso, o gás poderia cruzar a fronteira sem precisar atravessar a Bolívia. Outras propostas analisam possíveis corredores pelo Paraguai e pelo Uruguai.
A Shell Energy Brasil já afirmou publicamente que os primeiros fluxos regionais são uma realidade e que o próximo desafio é criar infraestrutura e contratos de médio e longo prazo capazes de ampliar a quantidade enviada ao Brasil.
Isso mostra que Vaca Muerta deixou de ser apenas uma questão argentina. A formação começa a se tornar uma fonte potencial de energia para todo o Cone Sul.
Gás argentino pode disputar espaço com GNL importado pelo Brasil
Essa expansão pode mudar as contas de empresas brasileiras. Hoje, quando o mercado nacional precisa de gás adicional, uma das alternativas é importar gás natural liquefeito.
O GNL é resfriado a aproximadamente 162 graus Celsius negativos, transportado por navios especializados e depois convertido novamente em gás nos terminais de regaseificação.
Esse processo permite trazer gás de produtores distantes, como Estados Unidos, Trinidad e Tobago e outros mercados globais.
O problema é que o preço pode variar intensamente conforme a demanda mundial, fretes e crises geopolíticas. O gás argentino poderia chegar por tubulações.
Se o custo total de produção mais transporte for competitivo, Vaca Muerta poderá se tornar concorrente direta dessas cargas marítimas.
Governo brasileiro calcula potencial para gás mais barato na origem
Documentos divulgados pelo Ministério de Minas e Energia já trabalharam com preços indicativos do gás argentino na origem entre US$ 2 e US$ 3 por milhão de BTU.
Quando transporte e outros custos são adicionados, o governo estimou anteriormente uma faixa próxima de US$ 7 a US$ 8 por milhão de BTU para chegada ao mercado brasileiro em determinados cenários.
O valor dependerá da rota escolhida, contratos de transporte, investimentos necessários e condições de mercado.
Mesmo assim, ajudam a entender por que indústrias brasileiras acompanham Vaca Muerta com atenção. Fertilizantes, química, cerâmica, vidro, siderurgia e geração termelétrica são setores que podem consumir volumes enormes de gás.
Argentina também prepara uma gigantesca indústria de GNL
Os gasodutos para países vizinhos são apenas uma parte da estratégia. A Argentina também quer transformar Vaca Muerta em fonte de gás natural liquefeito para exportação global.
Projetos envolvendo YPF, Eni e XRG estudam grandes unidades flutuantes de liquefação na costa argentina.
Nesse modelo, gás produzido em Neuquén atravessaria gasodutos até a costa, seria resfriado e transformado em líquido antes de seguir para mercados internacionais em navios metaneiros.
Isso colocaria a Argentina em condições de disputar clientes na Europa e Ásia.
Quanto maior a capacidade exportadora instalada, maior será também a competição entre o mercado brasileiro e compradores internacionais pelos volumes produzidos em Vaca Muerta.
US$ 10 bilhões mostram que Vaca Muerta entrou em outra fase
Durante muitos anos, a pergunta sobre Vaca Muerta era se seria possível transformar seus gigantescos recursos geológicos em produção comercial de larga escala.
Essa fase começa a ficar para trás. A formação já produz centenas de milhares de barris por dia. Oleodutos estão sendo ampliados. Exportações de gás começaram a cruzar fronteiras. Grandes companhias internacionais voltaram a anunciar bilhões de dólares em novos projetos.
A TotalEnergies pretende investir aproximadamente US$ 10 bilhões distribuídos entre petróleo, gás e projetos offshore. A empresa já opera cerca de um quarto do gás argentino e quer ampliar sua capacidade em Neuquén.
Ao mesmo tempo, Brasil e Argentina discutem corredores capazes de trazer volumes crescentes para as indústrias brasileiras.
Se esses gasodutos forem ampliados e os custos permanecerem competitivos, Vaca Muerta poderá deixar de ser apenas a grande revolução energética argentina e se transformar numa das principais fontes de gás importado pelo Brasil.
O que começou com poços horizontais perfurados no deserto de Neuquén pode terminar com milhões de metros cúbicos de gás atravessando fronteiras todos os dias e chegando a siderúrgicas, fábricas de fertilizantes, indústrias químicas e termelétricas brasileiras.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

