7 min de leitura
Médico japonês chegou ao Afeganistão para tratar doentes, percebeu que remédios não venceriam a fome sem água e passou duas décadas construindo canais que recuperaram 23,8 mil hectares e beneficiaram 650 mil pessoas
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 29/07/2026 às 19:09
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Tetsu Nakamura trocou o consultório pelas obras de irrigação no Afeganistão, recuperou 23,8 mil hectares e ajudou 650 mil pessoas.
Tetsu Nakamura deixou o Japão em 1984 para prestar atendimento médico em Peshawar, no Paquistão. Formado pela Universidade de Kyushu, começou tratando pacientes com hanseníase e refugiados afegãos que atravessavam a fronteira.
Seu trabalho avançou para comunidades remotas do leste do Afeganistão, onde hospitais eram escassos e milhares de famílias viviam longe de serviços básicos. Nakamura tornou-se responsável pelas atividades locais da Peshawar-kai e da Peace Japan Medical Services, organizações apoiadas por doadores japoneses.
Durante anos, percorreu vilarejos, abriu clínicas e atendeu pessoas atingidas pela pobreza. A experiência mostrou que muitos pacientes voltavam a adoecer porque a origem do sofrimento estava além dos medicamentos.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Seca no Afeganistão transformou doença em fome
No fim da década de 1990 e no início dos anos 2000, uma seca severa atingiu o Afeganistão. Fontes de água desapareceram, plantações foram perdidas e comunidades rurais começaram a abandonar suas terras. A falta de alimentos ampliou a desnutrição e tornou doenças mais perigosas.
Nakamura percebeu que distribuir remédios não resolveria uma crise provocada pela ausência de água. Sem irrigação, agricultores não plantavam. Sem colheitas, famílias não tinham renda nem alimentos. Sem água limpa, doenças reapareciam.
Assista o vídeo
A partir dessa constatação, o médico passou a defender uma resposta incomum. Em vez de concentrar todos os recursos em novas clínicas, decidiu perfurar poços, recuperar terras e levar água dos rios até as comunidades agrícolas.
Poços de água abriram caminho para o projeto de irrigação
Em 2000, a equipe iniciou um programa de escavação de poços para atender aldeias afetadas pela seca. A medida ofereceu alívio, mas Nakamura concluiu que os poços não recuperariam uma região inteira.
O nível subterrâneo poderia baixar, e pequenas fontes não sustentariam grandes áreas agrícolas. Era necessário criar um sistema capaz de retirar água de um rio, distribuí-la por canais e proteger as margens contra enchentes e erosão.
Em 2003, começou o Green Ground Project, iniciativa de reconstrução rural baseada na bacia do rio Kunar. Nakamura passou a estudar engenharia hidráulica, operação de máquinas, comportamento dos rios e técnicas tradicionais de irrigação.
Canal Marwarid levou água do rio Kunar ao deserto
O centro da transformação foi o Canal Marwarid, cujo nome significa pérola em persa. A obra foi aberta no leste do Afeganistão para conduzir água do rio Kunar até áreas áridas próximas de Jalalabad.
O projeto avançou em uma região de correnteza forte, sedimentos e cheias sazonais. Nakamura trabalhou ao lado de moradores, engenheiros e operadores locais, dirigindo máquinas e participando da colocação de pedras nas margens.
Com o tempo, o sistema alcançou aproximadamente 27 quilômetros de extensão. A rede foi complementada por estruturas de captação, canais secundários, diques e obras de proteção que permitiram irrigar campos antes abandonados.
Técnica japonesa do século XVIII foi adaptada ao Afeganistão
Para controlar o rio Kunar, Nakamura buscou inspiração em uma obra existente na província japonesa de Fukuoka. O Açude Yamada, construído no século XVIII, utiliza pedras e uma estrutura oblíqua para desviar parte da água sem bloquear completamente o curso do rio.
A solução foi adaptada às condições afegãs, aos materiais disponíveis e ao conhecimento dos trabalhadores locais. Em vez de depender de concreto e equipamentos importados, o projeto empregou pedras, madeira, arame e técnicas mantidas pelas comunidades.
A Sociedade Japonesa de Engenheiros Civis reconheceu a construção de um açude oblíquo de 385 metros e de um canal com cerca de 25 quilômetros. O método combinou engenharia tradicional japonesa, experiência afegã e observação contínua do comportamento do rio.
Moradores participaram da construção dos canais
O Green Ground Project não foi executado como uma obra isolada entregue pronta por uma empresa estrangeira. Moradores participaram da escavação, do transporte de pedras, da construção das margens e da manutenção dos canais.
Essa participação gerou trabalho e ajudou a transferir conhecimento técnico. Agricultores que dependiam da água também passaram a compreender como conservar o sistema, remover sedimentos e reparar danos depois das cheias.
Assista o vídeo
A escolha por tecnologias simples era prática. Uma infraestrutura vital não poderia depender permanentemente de especialistas estrangeiros ou de peças inacessíveis. Ela precisava continuar funcionando mesmo em períodos de insegurança, isolamento e redução do apoio internacional.
Terras abandonadas voltaram a produzir alimentos
A chegada da água alterou rapidamente a paisagem. Áreas secas foram convertidas em campos cultiváveis, árvores foram plantadas e famílias que haviam deixado suas aldeias encontraram condições para retornar.
O trigo continuou sendo uma cultura importante, mas agricultores também passaram a produzir arroz, verduras, frutas e outros alimentos. A irrigação permitiu mais estabilidade entre as estações e reduziu a dependência de chuvas imprevisíveis.
O projeto não entregou apenas água. Ele recuperou renda, trabalho e segurança alimentar. A agricultura voltou a sustentar mercados locais, criar ocupação e manter comunidades em áreas que antes caminhavam para o abandono.
Projeto recuperou 23,8 mil hectares de áreas áridas
Em 2023, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura informou que o projeto iniciado por Nakamura havia transformado 23,8 mil hectares de terras áridas abandonadas novamente em campos verdes.
A área representa uma transformação territorial de grande escala. Canais, açudes, diques e sistemas de proteção permitiram que a água alcançasse comunidades distribuídas pela bacia do Kunar.
Em outro balanço, a FAO apontou que técnicas associadas ao médico japonês levaram cerca de 25 mil hectares ao cultivo. As diferenças entre os números refletem datas e recortes distintos, mas confirmam a dimensão regional alcançada pelo sistema.
Canais de Tetsu Nakamura beneficiaram 650 mil pessoas
A JICA informou que as obras de irrigação melhoraram as condições de vida de aproximadamente 650 mil pessoas até 2019. O número reúne famílias alcançadas pela recuperação da agricultura, da água e da economia rural.
O impacto chegou muito além dos trabalhadores que abriram o Canal Marwarid. Agricultores passaram a colher, comerciantes receberam produtos, famílias encontraram alimento e comunidades ganharam proteção contra a desertificação e determinadas enchentes.
Ao devolver produtividade ao solo, o projeto atacou simultaneamente fome, deslocamento, desemprego e doenças relacionadas à pobreza. A água tornou-se uma infraestrutura de saúde tão importante quanto as clínicas que Nakamura havia ajudado a construir.
Médico trocou instrumentos clínicos por máquinas pesadas
A imagem que marcou a trajetória de Nakamura não foi apenas a de um médico atendendo pacientes. Ele também apareceu operando escavadeiras, observando o rio e caminhando por canteiros de obras cercados por pedras e canais.
Para conduzir o projeto, estudou técnicas que não faziam parte de sua formação universitária. Aprendeu com engenheiros, trabalhadores afegãos, agricultores e sistemas antigos de controle de água.
Essa mudança ampliou sua definição de cuidado. Para Nakamura, impedir que milhares de pessoas adoecessem de fome e sede era uma forma de proteger vidas.
Obra continuou mesmo em meio à instabilidade
As equipes trabalharam durante anos em uma região afetada por conflitos e secas. Máquinas, materiais e trabalhadores precisavam circular por áreas onde grandes projetos internacionais nem sempre conseguiam manter presença permanente.
A continuidade foi possível porque o sistema se apoiava fortemente em comunidades locais e em soluções adaptadas ao território. Os canais não eram estruturas desconectadas da vida rural; faziam parte da agricultura, do trabalho e da sobrevivência diária.
Nakamura permaneceu ligado às obras até 2019. Em dezembro daquele ano, ele e cinco integrantes de sua equipe morreram em um ataque no leste do Afeganistão. O médico tinha 73 anos.
Legado de Tetsu Nakamura continuou após sua morte
A morte de Nakamura provocou homenagens nos dois países. O governo japonês destacou suas contribuições à assistência médica, aos sistemas de irrigação e à reconstrução de vilarejos rurais.
As organizações que ele ajudou a liderar mantiveram atividades de irrigação, proteção contra enchentes e desenvolvimento comunitário. O método também passou a orientar novos projetos apoiados por instituições internacionais.
Em 2023, a JICA assinou um acordo com a FAO para ampliar técnicas praticadas por Nakamura, recuperar canais e fortalecer a produção agrícola. A iniciativa mostrou que o sistema criado no Kunar havia deixado de ser apenas uma experiência local e se tornado referência para outras comunidades.
Água transformou deserto em esperança nacional
Tetsu Nakamura chegou à região para tratar doenças, mas descobriu que a medicina não conseguiria vencer sozinha uma crise alimentada pela seca. Ele respondeu construindo poços, estudando rios e mobilizando comunidades para abrir canais.
Ao longo de quase duas décadas, o Green Ground Project recuperou 23,8 mil hectares e melhorou a vida de aproximadamente 650 mil pessoas. Terras abandonadas voltaram a produzir, aldeias receberam água e famílias recuperaram meios de sobrevivência.
Assista o vídeo
Seu trabalho demonstrou que uma obra de irrigação pode funcionar ao mesmo tempo como política de saúde, segurança alimentar, geração de renda e reconstrução nacional. No Afeganistão, o médico japonês não deixou apenas clínicas. Deixou água correndo pelo deserto e campos verdes onde antes a fome avançava.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

