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Cidade brasileira com menos de 10 mil habitantes está travando batalha contra dunas gigantes que avançam sobre casas, mas o motivo para não removê-las expõe um paradoxo ambiental da disputa com a areia
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 26/08/2026 às 19:27
Atualizado em 26/08/2026 às 19:28
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Ilha Grande, no litoral do Piauí, precisa conter a areia que se aproxima de áreas ocupadas sem eliminar formações que protegem a costa, ajudam a preservar os lençóis freáticos e integram a paisagem natural e turística do Delta do Parnaíba.
A pequena Ilha Grande convive com um problema produzido pela própria dinâmica do litoral: o vento desloca dunas em direção ao perímetro urbano, onde a areia pode alcançar residências, estabelecimentos comerciais e áreas de circulação usadas pela população.
O município tinha 9.274 moradores no Censo 2022 e população estimada em 9.522 pessoas em 2025, segundo o IBGE, mantendo-se abaixo de 10 mil habitantes enquanto administra uma faixa costeira marcada por dunas móveis.
A dificuldade está em controlar esse avanço sem tratar as dunas como estruturas que possam simplesmente ser retiradas, porque elas fazem parte do funcionamento ambiental da região e exercem funções de proteção em uma área sensível do litoral.
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O deslocamento ocorre principalmente pela ação dos ventos, que transportam os grãos e remodelam continuamente o terreno, fazendo com que determinadas formações avancem sobre espaços ocupados e transformem um processo natural em problema urbano para moradores e autoridades.
Contenção já mobilizou obra de 131 hectares
O conflito entre cidade e areia não é recente, e registros oficiais mostram que intervenções de contenção já eram executadas há mais de uma década para impedir que as dunas alcançassem imóveis localizados no perímetro urbano de Ilha Grande.
Em 2015, uma ação apoiada pelo então Ministério da Integração Nacional abrangia 131 hectares e utilizava biocoberturas para tentar fixar a areia em trechos críticos, com investimento de R$ 2,1 milhões e 99% da obra executada naquele momento.
A intervenção buscava impedir o avanço das montanhas de areia criadas por processos eólicos sobre residências e estabelecimentos comerciais, conforme registrou o governo federal ao detalhar as ações realizadas na bacia do Rio Parnaíba.
A biocobertura emprega materiais vegetais para reduzir a movimentação da areia e favorecer a fixação de vegetação, estratégia que permite atuar em áreas de conflito sem promover a retirada generalizada das dunas presentes no território.
Outras iniciativas descritas para o município incluem biomantas de fibras vegetais, isolamento de áreas, palhas de coqueiro e plantio de espécies nativas, medidas voltadas a diminuir o deslocamento da areia nos pontos mais próximos da ocupação humana.
O objetivo, portanto, não é tornar imóvel todo o campo de dunas, mas interferir nos trechos em que o movimento natural passa a ameaçar moradias, comércio ou infraestrutura, preservando a dinâmica arenosa onde ela não cria esse tipo de risco.
Por que as dunas não podem simplesmente desaparecer
O paradoxo aparece porque a mesma areia que pode causar prejuízos quando alcança a cidade também exerce funções ambientais reconhecidas na Área de Proteção Ambiental Delta do Parnaíba, unidade de conservação federal da qual Ilha Grande faz parte.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade informa que as dunas ajudam a barrar o avanço do mar, dificultam a entrada de água salgada nos lençóis freáticos e protegem áreas vizinhas contra riscos de erosão.
Essas formações são modeladas continuamente pelo vento e aparecem tanto no litoral quanto perto dos leitos dos rios, compondo um sistema em que a mobilidade da areia é uma característica natural, e não uma anomalia a ser eliminada.
A APA reúne ambientes como dunas, manguezais, rios, praias e áreas estuarinas em municípios do Piauí, Maranhão e Ceará, o que amplia a importância de evitar uma intervenção que resolva um problema urbano às custas de outra função ambiental.
Por isso, a lógica das medidas de contenção é seletiva: reduzir o deslocamento onde a proximidade com imóveis cria risco concreto, sem remover indiscriminadamente estruturas que funcionam como barreira natural e participam da proteção costeira.
As mesmas dunas fazem parte do turismo
A relação de Ilha Grande com a areia também passa pelo turismo, porque as dunas integram alguns dos principais cenários dos passeios pelo Delta do Parnaíba e aparecem ao longo de roteiros percorridos por embarcações e visitantes.
O Porto dos Tatus, no município, funciona como ponto de saída para viagens pelos braços do Delta, com percursos que atravessam áreas de manguezais, igarapés, ilhas e trechos onde grandes formações arenosas chegam às margens dos rios.
Entre esses locais está o Morro Branco, também relacionado à área conhecida como Caída do Morro, onde as dunas encontram o Rio dos Tatus e fazem parte de roteiros usados para caminhadas e atividades de natureza.
Essa presença turística acrescenta outra dimensão ao problema enfrentado pela cidade, já que as formações que exigem contenção perto das áreas habitadas também compõem o ambiente protegido e a paisagem que leva visitantes ao litoral piauiense.
Nos pontos de maior conflito, a resposta registrada ao longo dos anos tem sido recorrer à fixação da areia com materiais vegetais e espécies nativas, mantendo a contenção concentrada onde o avanço das dunas ameaça diretamente a ocupação urbana.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

