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Entomóloga do Museu de Zoologia da USP suga cupins com uma mangueira de borracha a 1.260 metros de altitude, no topo de arenito a 220 quilômetros ao norte de Barcelos, onde cinco dias de coleta já renderam mais de 100 plantas
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 09/09/2026 às 13:09
Atualizado em 09/09/2026 às 13:10
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A entomóloga Gabriela Procópio Camacho aparece na foto com uma mangueira de borracha na boca, sugando cupins de um galho a 1.260 metros de altitude. É o método dela no alto da Serra do Aracá, um platô de arenito no extremo norte do Amazonas onde nove pesquisadores trabalham desde 24 de agosto de 2026.
O lugar é difícil de alcançar e por isso mesmo é pouco conhecido.
A serra fica a cerca de 220 quilômetros ao norte de Barcelos, no Rio Negro, e a formação é um tepui, aquele tipo de montanha de topo plano e paredes verticais que funciona como uma ilha de vida isolada acima da floresta.
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Paulo Nogueira
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Quem chega ali encontra um ecossistema que não conversa com o que existe na planície logo abaixo.
Insetos de dia, anfíbios à noite: a rotina divide o relógio
A expedição opera em dois turnos porque a fauna também opera assim.
Durante o dia a equipe de entomologia varre troncos, folhas e serrapilheira atrás de insetos, e quando escurece são os herpetólogos que saem com lanterna de cabeça atrás de anfíbios, aproveitando o horário em que sapos e pererecas cantam para se localizar.
É o mesmo território percorrido duas vezes, com resultados completamente diferentes.
Cinco dias de coleta e mais de cem espécimes de plantas
Os números iniciais dão a dimensão do que um tepui guarda.
Nos cinco primeiros dias a equipe já havia reunido mais de 100 espécimes de plantas, entre 8 e 9 espécies de anfíbios e de 4 a 5 espécies de lagartos.
Entre as aves foram registrados três indivíduos do beija-flor Colibri delphinae, e a mastozoologia contabilizou um roedor do gênero Zygodontomys.
Vale sublinhar que são resultados preliminares, contados na primeira semana de um trabalho que seguia em curso.
Nove pesquisadores de cinco instituições diferentes
A composição da equipe explica por que a coleta cobre tantos grupos ao mesmo tempo.
Da entomologia participa Gabriela Procópio Camacho, do Museu de Zoologia da USP, e da ornitologia estão Luis Fábio Silveira e Igor Alvarenga, da mesma instituição.
A botânica ficou com Vania Nobuko Yoshikawa, do Inpa, e Jenifer de Carvalho Lopes, do Jardim Botânico do Missouri, enquanto a mastozoologia reúne Alexandre Percequillo, da Esalq-USP, e Ana Paula Carmignotto, da UFSCar.
Na herpetologia estão Miguel Trefaut Rodrigues e Taran Grant, do Instituto de Biociências da USP.
O trabalho de campo começa no laboratório, meses antes
Uma das falas registradas na expedição desmonta a imagem romântica da coleta improvisada.
Segundo a botânica da equipe, o trabalho de campo começa no laboratório, e antes de chegar ali o grupo leu vários artigos para saber o que procurar, onde procurar e o que já havia sido descrito na região.
Sem essa preparação, o pesquisador gasta dias coletando o que já está catalogado.
Por que o canto do sapo precisa ser gravado junto com o bicho
Esse é o detalhe metodológico mais interessante do trabalho noturno.
O herpetólogo explicou que é importante registrar exatamente qual é o indivíduo que está cantando, por vários motivos, e a razão é que em anfíbios o canto costuma ser um dos critérios que separam espécies parecidas demais para o olho distinguir.
Gravar o som sem saber de qual animal ele saiu inutiliza metade do dado.
A urgência que aparece na fala do diretor
Expedição a tepui é cara, depende de logística pesada e de janela climática, e isso transparece no tom da equipe.
O diretor do Museu de Zoologia resumiu a pressa dizendo que quanto mais rápido chegarem, melhor, porque tempo é dinheiro e não se pode desperdiçar uma oportunidade valiosa como aquela.
A entomóloga foi na mesma direção ao afirmar que aquela é uma oportunidade única de coletar, e que por isso quer amostrar a maior parte dos insetos que conseguir.
A mangueira de borracha é uma ferramenta séria, não improviso
Confesso que a imagem da pesquisadora sugando cupins parece pitoresca, e é justamente por isso que vale explicar.
O aparelho é um aspirador manual usado há décadas em entomologia para capturar insetos pequenos e frágeis sem esmagá-los, e o pesquisador cria a sucção com o próprio fôlego enquanto um filtro impede que o bicho chegue à boca.
É barato, silencioso e funciona onde nenhum equipamento eletrônico chegaria.
Um tepui funciona como ilha, e ilha produz espécie própria
Vale explicar por que uma montanha de topo plano interessa tanto a biólogo.
O topo fica isolado da floresta pela própria parede de arenito, e populações que sobem e ficam ali deixam de trocar genes com as da planície, o que ao longo do tempo tende a produzir formas que existem naquele topo e em nenhum outro lugar do planeta.
É o mesmo princípio que torna arquipélagos oceânicos tão ricos em espécies exclusivas, aplicado a uma ilha de pedra cercada de mata.
Por isso a contagem preliminar de oito a nove espécies de anfíbios em cinco dias chama atenção num ponto tão restrito.
Some-se a isso o fato de a Serra do Aracá estar a mais de duzentos quilômetros do município mais próximo, o que reduz drasticamente o número de expedições que conseguiram trabalhar ali ao longo das últimas décadas e amplia a chance de o material coletado agora trazer surpresa.
O que uma coleta dessas produz depois que a equipe desce
O campo é a parte visível e a mais curta do processo.
Cada espécime coletado vira registro de coleção científica, com data, coordenada, altitude e método anotados, e é esse acervo que permite, anos depois, alguém comparar populações, descrever espécie nova ou detectar que algo desapareceu de uma área.
O diário de campo completo da expedição, com as fotos e os nomes de toda a equipe, foi publicado pela Agência FAPESP em 8 de setembro de 2026.
Dá para passar a vida inteira no Brasil sem saber que existem montanhas de topo plano no norte do Amazonas. Conta nos comentários se você já tinha ouvido falar da Serra do Aracá.
O que você imagina que ainda existe sem nome científico no alto de uma montanha amazônica isolada?
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Fonte
Agência FAPESP
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

